10 janeiro, 2026

un peu de gaz au fond de vos yeux / um pouco de gás no fundo dos olhos

 
une lueur me prend à l’estomac. je veux comprendre. les cortégraphes expliquent, schémas à l’appui. à votre naissance, votre mémoire n’était rien de plus qu’un peu de gaz au fond de vos yeux. pour se constituer, faire matière, la mémoire agrège autour d’elle toutes les poussières présentes dans son environnement : poussières issues des bouches des parents, des bouches des grands-parents, des bouches du reste de la famille, des bouches des voisinexs, des bouches des présentateuricexs, du journal de 20h, des bouches des adorables cochons dans les livres d’histoires avant de s’endormir, des bouches des copainexs, des couinexs, des idoles… oui, toutes les bouches font de la poussière pour constituer la planète qui vous servira de mémoire durant la vie entière. son sol est composé des grains de toutes les voix que vous avez entendues jusqu’à l’âge de 7 ans. après ça, eh bien, ça reste stable. c’est d’ailleurs à ce moment-là que les souvenirs cessent de s’enfuir.

 
Héloïse Brézillon
 

uma faísca puxa-me pelo estômago. quero compreender. os mapeadores do córtex explicam, gráficos detalhados. Ao nascer, a memória era apenas um pouco de gás no fundo dos olhos. para se constituir, para (pro)criar, a memória agrega à sua volta todas as poeiras presentes no seu ambiente: poeira das bocas dos pais, das bocas dos avós, das bocas da restante família, das bocas da vizinhança, das bocas de quem faz apresentações, do jornal das 20h, das bocas dos adoráveis porcos nos livros de histórias antes de adormecer, das bocas das amizades, de quem guincha, dos ídolos... Sim, todas as bocas fazem poeira para constituir o planeta que servirá de memória toda a vida. o seu solo é composto pelos grãos de todas as vozes ouvidas até à idade de 7 anos. depois disso, bem, ele permanece estável. É nesse momento que as lembranças deixam de fugir.