11 junho, 2026

o país subterrâneo

 
O PAÍS SUBTERRÂNEO
 
Portugal acorda cedo.
 
Ainda o sol não abriu os olhos
e já as mães empurram os filhos
para dentro das mochilas maiores do que eles.
 
As escolas esperam-nos.
 
Grandes aquários de luz fluorescente
onde os peixes aprendem a repetir o nome do oceano
sem nunca terem visto o mar.
 
Nas salas de aula
há crianças sentadas sobre pequenos vulcões.
 
Algumas chegam com galáxias inteiras nos bolsos.
Outras trazem florestas.
Outras transportam animais desconhecidos
a ronronar dentro do peito.
 
Ao fim de alguns anos
já quase todas sabem preencher quadrículas.
As florestas desapareceram.
Os animais aprenderam a obedecer.
As galáxias foram substituídas
por respostas de escolha múltipla.
 
Lá fora
 
o país continua a fabricar emigrantes
com a paciência artesanal
com que antigamente fabricava caravelas.
Não exporta cortiça.
Não exporta vinho.
Exporta futuros.
Todos os dias.
 
Em caixas cuidadosamente embaladas.
Os aeroportos são as verdadeiras maternidades nacionais.
Ali nascem os físicos.
Ali nascem os compositores.
Ali nascem os médicos.
Ali nascem os poetas.
Ali nascem os filhos que o país
não consegue sustentar sem lhes pedir perdão.
 
E é extraordinária a serenidade do desastre.
 
Nas praças continuam os pombos.
Nos cafés continua o açúcar.
Nos discursos continua a palavra
excelência.
Só a excelência continua ausente.
 
Entretanto
nos ministérios cresce uma vegetação estranha.
Trepadeiras de burocracia sobem pelas paredes.
Há fungos de pareceres.
Há líquenes administrativos.
Há corredores inteiros
ocupados por espécies protegidas de carimbo.
Os funcionários deslocam-se lentamente
para não assustar os formulários.
 
A cultura habita mais abaixo.
Na cave.
Entre os canos velhos.
 
Os poetas respiram por guelras.
Os pintores alimentam-se de pigmentos.
Os músicos queimam os móveis
para aquecer os instrumentos.
 
De vez em quando
aparece uma comitiva estrangeira.
Então abre-se uma porta.
Mostram-se três artistas.
Dois cientistas.
E uma bailarina.
Como quem mostra os seus linces ibéricos.
Depois volta a fechar-se tudo.
 
A conservação da raridade
é uma das especialidades nacionais.
Mas o país gosta dos mortos.
Os mortos não exigem orçamento.
Os mortos não apresentam candidaturas.
Os mortos não falham indicadores.
Por isso recebem estátuas.
Os vivos recebem palavras de incentivo.
 
E assim seguimos.
 
Como um velho paquete imóvel
convencido de estar a atravessar oceanos.
 
Como um relógio
que dá sempre a mesma hora
e se julga eterno por isso.
 
Como uma árvore
que exporta todos os frutos
e passa os anos
a contemplar os próprios ramos.
 
À noite
 
quando as cidades adormecem
 
ouve-se um ruído estranho
debaixo da terra.
 
Não são máquinas.
Não são comboios.
São milhões de asas.
 
As asas que as crianças desenharam
nos cadernos da escola.
As mesmas que lhes apagaram.
As mesmas que continuam lá.
 
Debaixo do país.
 
À espera.
 
§
 
Fátima Vale

05 junho, 2026

todo ha de ser igual igual

 

Anxo Pastor



sentada diante
da espenuca
até que esbarrighen
pórticos e frontespicios
toda a gama de extravíos
e cegueiras
precavido candil
                              plétora
pléroma
caladiña até ver as flores
máis simples
de tallada
simpleza-
eza-eza-eza-
respirando
apaisada-
mente
no meu abdome
todo ha de ser igual igual
trala derruba
mais eu que va

 
Maite Dono


                                 ortografia portuguesa :
sentada diante
da caruma
até que se esboroem
pórticos e frontispícios
toda a gama de aberrações
e cegueiras
Precavida candeia
                             plétora
pléroma
caladinha até ver as flores
mais simples
de talhada
singeleza-
eza-eza-eza-
respirando
oblongada-
mente
no meu abdómen
tudo há-de ser igual igual
depois do derrube
irei embora
 

04 junho, 2026

Dans la maison de pierre je blottis mes mots de peur / Na casa de pedra mastigo as minhas palavras de medo

Les mistrals font taire les oiseaux puis ils arriment les chênes à l’espoir et nous n’avons plus de mot
 
Dans l’hôpital psychiatrique les jeunes se parlent leurs malheurs tout frais, ils n’ont aucun symptôme sur leur visage mais ils savent pleurer
 
Cette peine-là est plus intrinsèque que le vent de terre, elle augmente les risques de suicide et prend des antidépresseurs pour tâcher de perdurer
 
C’est alors qu’à l’horizon les montagnes bleuissent dans les soirs et ta solitude crève le silence entre chênes et buis
 
Malgré le mistral malgré les reproches et les ruines tombant toutes seules d’un bruit sec, le fils a appelé puis il a expliqué la sortie imminente de l’hôpital psychiatrique
 
Le mistral avait sa voix inaltérable
 
C’est toujours à rebours du temps que se jouent les défaites
Les chênes construisent des crépuscules, et le thym est une gageure concrète et sèche
 
Dans la maison de pierre je blottis mes mots de peur
 
La jeune fille surdouée avait tenté de s’ouvrir les veines puis lui avait confié un cahier de citations mortifères
 
Le mistral s’est emparé de la forêt puis les quelques randonneurs abstraits ont fui et je me suis assise au bord de la déroute et tous les 4×4 sont descendus dans la vallée
 
Le mistral s’est jeté sur la terre et les arbres gémissaient, corps détrôné
 
 
Anne Barbusse
 
 
Os mistrais silenciam os pássaros, depois amarram os carvalhos à esperança e deixamos de ter palavras
 
No hospital psiquiátrico, os jovens falam entre si sobre as suas desgraças, não têm qualquer sintoma nos seus rostos, mas sabem chorar
 
Aquela dor é mais intrínseca do que o vento da terra, aumenta o risco de suicídio e toma antidepressivos para tentar perdurar.
 
É então que no horizonte as montanhas se tornam azuis à noite e a tua solidão apaga o silêncio entre carvalhos e árvores
 
Apesar do mistral apesar das críticas e das ruínas a cair sozinhas de um ruído seco, o filho ligou e tentou explicar a iminente saída do hospital psiquiátrico.
 
O mistral tinha a sua voz inalterável
 
É sempre contra a manada que acontecem as derrotas
Os carvalhos constroem crepúsculos, e o tomilho é um desafio concreto e seco
 
Na casa de pedra mastigo as minhas palavras de medo
 
A rapariga sobre-dotada tentou abrir as veias e depois confiou-lhe um livro de citações mortíferas
 
O mistral assenhoreou-se da floresta assim os poucos andantes abstratos fugiram e eu sentei-me à beira do descalabro e todos os 4x4 desceram para o vale
 
O mistral lançou-se sobre a terra e as árvores gemiam, corpo destronado