11 outubro, 2026

kalbini ferah tut / fica com o coração em paz

 
Kalbini ferah tut
 
sana kinim vardır elbet senden başka kimim var
kimim kimsem yok değil kesilmedi zürriyetim
kesilmedi hiç nefesim koştumsa da ateşle
su olsun diye yazdım bana kimler sus desin
konuşan özneyim işte, isteyenin mezarına tüküren
kin kimi öldürürmüş belki yaşarız böylece
kahpenin dümeniyle yaşamanın seyrinde
namerde mert der miyiz ölsek onun yerine
 
beleş bir iş değil beni kendine düşman edişin
bu cüreti sevmişsin pahasını bilmeden
bilmemek bilmekten iyidir hani
kıymetin bilinsin diye seçtiğin
üstüme elbiseler biçtiğin kan ve terden
uymadı üzerime söküldü teyellerim
beni gördüğün kadardı gözlerin
gördüğün kadar değil dünya ve içindekiler
bu faslı ağırdan geçelim
 
sana ne verebilirim kinimden başka
ey kendini ele verdikçe acıkan yenilgi
ey doğruluğun eksik cümlesi
ey cümbür ey cemaat ey bir hatip cümlesinde
körler sağırlar meclisinde cümlenize ey
ey demeyi kes nereye gitsen bu belâya musallat
o korkunç pençesinde açlığın
 
harcı âlem bıraktığın kalbini merak edersen
götürüp Londra’nın ortasına bıraktım
ne bülbül ne çocukluk ne keder.
 
 
Zeynep Arkan
 
 
Fica com o coração em paz

Claro que te guardo, a quem mais tenho senão a ti?
não é que eu não tenha ninguém, a minha linhagem não se extinguiu,
a minha energia nunca me faltou, embora tenha corrido em fogo
escrevi para que fosse água, quem são eles para me calar?
sou o sujeito que fala, a que cospe sobre o túmulo de quem quiser,
a quem mata o ressentimento? talvez assim continuemos
o percurso de uma vida governada pelo timão da traidora
chamaríamos covarde ao corajoso, mesmo se morrêssemos em seu lugar?
 
não é coisa barata ter-me feito tua inimiga
aparentemente, gostaste desta ousadia sem lhe saber o preço
não saber é melhor do que saber, supõe-se,
escolhidos para que se conhecesse o teu valor,
os vestidos que com sangue e suor me cortaste à medida
não me assentavam bem, descozeram-se os alinhavos,
os teus olhos chegavam até onde me vias
o mundo e quanto nele há  não são apenas o que vês
vamos devagar nesta parte.
 
Que mais te posso oferendar, senão o meu rancor?
oh, derrota, que se torna mais faminta quanto mais se delata,
oh, frase incompleta da verdade,
oh, multidão, oh, congregação, oh, na frase de um orador
na assembleia de cegos e surdos, oh, a todos vós,
chega de dizer "oh"; ondequerquevás, esta desgraça te persegue
com essas garras terríveis da fome.
 
se perguntares pelo teu coração, que deixaste convertido em qualquer coisa,
levei-o comigo e deixei-o no meio de Londres:
nem rouxinol, nem infância, nem pena.
 
 

05 outubro, 2026

como te chamas ?


Em Padrón, ao lado da casa de Rosalía, escondida sob o matagal, uma loja aluga triciclos sem motor para pessoas com deficiência de ritalina, e que usa, por defesa, uma poderosa armadura nostálgica.

Na sua bula em pedra, encontra-se inscrito, como princípio ativo, uma casca de roda própria, um vitamínico produzido pela tenda " Artexanato ".

Deslizam os triciclos de rolamentos, os 3 km sem canseira até Pontecesures, sem curvas para cesurar, sem paradores ou mirradouros. 

O Ulha espera os corpos.

Por ali cada um pode usar as suas sinapses para criar 1/2 acre de lugar livre, deitando-se com ternura, em vestes de borboleta, no verde variado.

Como chamar a esse verde e diverso?

A Joana disse que, em vez de lhe chamar nomes, o melhor era saber o nome que a si própria essa raridade dava.

Pondo a boca no chão fresco, perguntou-lhe : " Como te chamas? "
 

alberto augusto miranda



habitação, entrar em casa

 



Mike Nelson


A CASA DO MUNDO
 
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
 
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
 
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirenéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
 
Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.
 
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
 
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
 
É a casa do mundo:
desaparece em seguida.
 
Luiza Neto Jorge
 

03 outubro, 2026

nada de mí / nada de mim

 


Anxo Pastor


NADA DE MI
 
Me vi,
me vi por la espalda
hasta que no quedó nada de mí.
Me vi por ahí, despacio,
en la nada de mi.
Me vi por la espalda
y estuve a punto de atraparme,
me vi, me vi
como si fuera otra yo misma,
ni tan siquiera esa nada de mí.
 
*
 
LA DURMIENTE NÚMERO ONCE
se despierta a tiempo de salvarse,
al compás de la respiración
de los que duermen alrededor.
El riesgo de la pesadilla
al despertar se hace música,
al ritmo de los cubiertos
y los platos de la cocina.
 
 
Marina Oroza
 
 
NADA DE MIM
 
vi-me,
vi-me por trás
até não ficar nada de mim.
vi-me por aí, devagar,
no nada de mim.
Vi-me por trás
e estive prestes a agarrar-me,
vi-me, vi-me
como se fosse outra eu própria,
sem sequer esse nada de mim.
 
 
*
 
A ADORMECIDA NÚMERO ONZE
acorda a tempo de se salvar,
ao compasso da respiração
dos que dormem em volta.
O risco do pesadelo
ao acordar faz-se música,
ao ritmo dos talheres
e dos pratos da cozinha.


Muero / Morro :

01 outubro, 2026

M’he extirpat / Extirpei-me

 

M’he extirpat
de tu
però a la panxa     encara hi duc
el teu secret
o sigui que     no acabo
de matar-te.


*

M'han deixat descalça dins del bosc
i diuen que sóc una      mentidera.
Jo ja sé fer lletra lligada i tombarelles
però les formigues em pugen com homes
per les cames      i jo vull casa meva
i no em puc moure     i s'està fent fosc
i no vull plorar      perquè soc gran
i diran que m'enyoro.


Greta Sibling
 
 
Extirpei-me
de ti
porém no ventre     mesmo assim carrego
o teu segredo
por isso    não consigo acabar
de te matar.

*

Descalça me deixaram nesta floresta
e dizem que sou uma   mentirosa.
Já sei fazer letra cursiva e piruetas
mas as formigas sobem por mim     como homens
pelas pernas        e eu quero ir para casa
e não consigo mexer-me     e está a escurecer
e não quero chorar      porque já sou adulta
e vão dizer que deles a falta    sinto.