05 outubro, 2026

habitação, entrar em casa

 



Mike Nelson


A CASA DO MUNDO
 
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
 
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
 
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirenéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
 
Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.
 
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
 
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
 
É a casa do mundo:
desaparece em seguida.
 
Luiza Neto Jorge
 

03 outubro, 2026

nada de mí / nada de mim

 


Anxo Pastor


NADA DE MI
 
Me vi,
me vi por la espalda
hasta que no quedó nada de mí.
Me vi por ahí, despacio,
en la nada de mi.
Me vi por la espalda
y estuve a punto de atraparme,
me vi, me vi
como si fuera otra yo misma,
ni tan siquiera esa nada de mí.
 
*
 
LA DURMIENTE NÚMERO ONCE
se despierta a tiempo de salvarse,
al compás de la respiración
de los que duermen alrededor.
El riesgo de la pesadilla
al despertar se hace música,
al ritmo de los cubiertos
y los platos de la cocina.
 
 
Marina Oroza
 
 
NADA DE MIM
 
vi-me,
vi-me por trás
até não ficar nada de mim.
vi-me por aí, devagar,
no nada de mim.
Vi-me por trás
e estive prestes a agarrar-me,
vi-me, vi-me
como se fosse outra eu própria,
sem sequer esse nada de mim.
 
 
*
 
A ADORMECIDA NÚMERO ONZE
acorda a tempo de se salvar,
ao compasso da respiração
dos que dormem em volta.
O risco do pesadelo
ao acordar faz-se música,
ao ritmo dos talheres
e dos pratos da cozinha.


Muero / Morro :

01 outubro, 2026

M’he extirpat / Extirpei-me

 

M’he extirpat
de tu
però a la panxa     encara hi duc
el teu secret
o sigui que     no acabo
de matar-te.


*

M'han deixat descalça dins del bosc
i diuen que sóc una      mentidera.
Jo ja sé fer lletra lligada i tombarelles
però les formigues em pugen com homes
per les cames      i jo vull casa meva
i no em puc moure     i s'està fent fosc
i no vull plorar      perquè soc gran
i diran que m'enyoro.


Greta Sibling
 
 
Extirpei-me
de ti
porém no ventre     mesmo assim carrego
o teu segredo
por isso    não consigo acabar
de te matar.

*

Descalça me deixaram nesta floresta
e dizem que sou uma   mentirosa.
Já sei fazer letra cursiva e piruetas
mas as formigas sobem por mim     como homens
pelas pernas        e eu quero ir para casa
e não consigo mexer-me     e está a escurecer
e não quero chorar      porque já sou adulta
e vão dizer que deles a falta    sinto.

29 setembro, 2026

sons nus


                      Sons-Nús ( Maite Dono & Baldo Martínez )          
3 outubro 2026, 19.30h
A Casa do Pozo
Vilar - Bande
( Gerês - Ourense )


a desconhecida

 


Je hais et abjecte en lâche tout être qui ne reconnaît pas que la vie ne lui est donnée que pour refaire et reconstituer son corps et son organisme tout entier ( Antonin Artaud )

Odeio e abomino em abjecção todo o ser que não reconhece que a vida só lhe é dada para refazer e reconstituir o seu corpo e todo o seu organismo