27 março, 2026

Tel Aviv — a noite que esvoaça


 
Sobre Tel Aviv,
milhares de corvos
vêm lembrar à manhã
que toda a claridade transporta a sua sombra.
 
Como se o céu tivesse sido rasgado
por uma mão de vento e cinza,
voam.
Voam como uma escrita sem tradução
que, no entanto, o corpo entende
na parte mais antiga da dor.
 
Vê-se a cidade
e o que a cidade tenta não ver.
Vê-se o muro como um hábito do medo.
Vê-se o mapa dobrado sobre a mesa
como se a terra fosse de papel.
Vê-se a oliveira cortada
e a seiva a subir, a subir, a subir,
como sobe uma memória
no tronco de uma mãe.
 
Não há símbolo bastante vasto
para caber no que está vivo.
Não há superstição assaz profunda
para explicar o voo.
Os corvos sabem apenas
o peso do ar antes da queda,
a alteração mínima da matéria
quando a violência entra no mundo
e o mundo finge que não treme.
 
Mas a pedra treme.
A água subterrânea treme.
A menina que encosta a mão à poeira treme
sem saber o nome disso.
 
O olhar dela não pede absolvição, nem história,
nem sequer justiça.
Pede apenas que o mundo
não seja mais duro do que o coração que a bombeia.
 
E há crianças canoras
a nascer noutros jardins,
com a boca cheia de romãs
e de ausência,
com o primeiro choro a subir
como um beija-flor sobre os telhados.
Há tapetes
com labirintos de ouro gasto.
Há nomes que não se deixam apagar pelo silvo do terror.
Há avós dentro das sementes.
Há casas que continuam de pé
na respiração de quem foi expulso.
 
Tel Aviv escuta
o rumor da oliveira,
o sal do mar,
a língua enterrada,
a frase interrompida,
a fruta que amadurece
mesmo longe da árvore.
 
Os corvos passam
e o seu voo não pertence a ninguém.
Atravessam a antiga ferida da altura,
onde os homens
decidem quem pode existir inteiro
e quem deve viver em fragmentos.
 
Nenhum deus assina este tempo.
Nenhum céu lava a mão que lança o projéctil.
A matéria tem a sua memória.
E a terra, quando parece vencida,
guarda no fundo uma fidelidade mineral
que ninguém consegue governar.
 
Tel Aviv,
é a claridade onde os corvos escrevem
a negra gramática do real.
É o lugar onde a noite esvoaça
sem cair,
porque cair seria terminar
e o que existe ainda
não termina:
muda de forma,
entra na respiração,
volta à seiva,
volta à pedra,
volta ao olhar da menina,
volta à boca da terra
que ainda pronuncia
o nome do que lhe foi arrancado.
 
E a noite que esvoaça
não se detém sobre Tel Aviv,
desliza,
apenas desliza,
tocando com a asa
a indiferença das nuvens.
 
§
 
Fátima Vale 

24 março, 2026

ojos plomizos eran / olhos plúmbeos eram

 
Caían esquirlas del tejado
y aullaban los perros.
El terremoto cuarteó el bahareque de las paredes
donde tantos tesoros
escondimos para ti.
La abuela impidió que tu pequeño cuerpo
fuera lanzado
a los canales del hospital.
Te dispuso en tu cajita blanca
y alimentó el misterio de tus ojos:
 
ojos plomizos eran,
como la crecentada cuando erosiona las montañas,
redondos, humedecidos por la garúa de agosto
cuando hay tanto viento,
apagados en la ceniza de promesas incumplidas.
 
Una lámina de papel de arroz apareció
entre mis ojos y los tuyos
y mi cabeza de cinco años se embarcó
como polizón en tu caja pequeña.
 
La abuela
fundadora de un contracosmos orgánico
preparó el puñado de cal para tu fosa:
ahí te dejó,
estrella con la clavícula rota por los fórceps.
 
 
Bernardita Maldonado
 
 
Caíam derrocas do telhado
uivavam os cães .
O terramoto rachou o bajareque das paredes
onde tantos tesouros
escondemos para ti.
A avó impediu que o teu pequeno corpo
fosse atirado
aos canais do hospital.
Dispõs-te na tua caixinha branca
alimentou o mistério dos teus olhos:
 
olhos plúmbeos eram,
como a enxurrada quando erode as montanhas,
redondos, humedecidos pela morrinha de agosto
quando há tanto vento,
apagados nas cinzas de promessas não cumpridas.
 
Uma folha de papel de arroz apareceu
entre os meus olhos e os teus
a minha cabeça de cinco anos embarcou
como uma clandestina na tua pequena caixa.
 
A avó
fundadora de um contracosmos orgânico
preparou o punhado de cal para a tua vala :
aí te deixou,
estrela com a clavícula partida pelos fórceps.


20 março, 2026

A Moral dos Assassinos

Lembras-te de ser trabalhador?

Havia uma verdade simples na palavra.
O corpo entrava no dia
com o seu peso,
com a sua fadiga,
com a sua teimosia contra a matéria.

Trabalhar era tocar o mundo.
E o mundo, ainda que duro,
respondia.

Os sindicatos ainda usam a palavra.
Chamam-te assim, nos panfletos, nas sedes, nas manifestações.
Mas a palavra já não te alcança.
Soa a outro tempo,
a uma dureza que já não queres para ti.
Parece que te rebaixa,
que te fixa num lugar
de onde julgas ter saído.

Substituiram-na por colaborador.
A palavra entrou devagar,
quase com gentileza.
Parecia aproximar.
Parecia suavizar.
Parecia tirar-te do fundo da fila,
e dar-te um lugar à mesa.

E aceitaste
porque era mais leve.
Porque parecia escolha.
Porque ninguém gosta de ser lembrado
daquilo de que precisa de se defender.

Já não se diz esforço.
Diz-se integração.
Já não se diz conflito.
Diz-se pertença.
Já não se diz dependência.
Diz-se participação.

E a língua, pouco a pouco,
aprendeu a não ferir.
E tu, com ela.

Foi assim, sem discussões,
que se deu o suicídio simbólico
antes da morte real.

Chamam estratégia
ao que é massacre.
Chamam precisão
ao cuidado de medir a queda.
Chamam contenção
à escolha do lugar
onde a morte deve cair
sem manchar a imagem de quem a ordena.

Vede:
a cena abre-se sem alarme.
Uma mesa.
Ecrãs.
Mapas.
Uma cidade reduzida a escombros.
Uma criança reduzida
a margem tolerável.
Milhares de crianças reduzidas a danos colaterais.

Tudo parece correcto.
Tudo parece sóbrio.
Tudo parece normal.

Onde vai o opressor buscar a razão?
Na frase certa.
Na voz sem tremor.
No relatório.
Na televisão.
Na delicadeza com que se nomeia a ruína
para que ela pareça necessária.

Como se explicam os abismos em horário nobre?
Com um tom estável.
Com palavras lavadas.
Vestindo o idioma do crime
com a roupa da ordem.

Quem são os carrascos?
Os que apertam o botão.
Os que assinam.
Os que corrigem a linguagem.
Os que tornam a violência aceitável em horário nobre.

E nós,
os que um dia aceitaram uma palavra mais leve,
os que ouviram sem interromper,
os que deixaram a língua subir
até perder o chão,
também entramos nessa escada.

Mas o sangue derramado não é discreto.
A ruína não se torna justa
por ser falada com compostura.
E o crime não deixa de ser crime
porque aprendemos a aceitá-lo.

Há sempre, no fundo de tudo isto,
uma criança que não entra na linguagem,
uma mãe que não encontra nome para o que perdeu,
milhares de corpos que ficam do lado de fora
da frase contorcionista.

É por isso que a mentira falha,
porque a dor não é elegante,
não cabe no ecrã,
não se deixa reduzir à medida
em que a razão dos monstros
gostaria de a encerrar.

E nós,
nós que aceitamos a palavra mais leve,
nós que ouvimos sem interromper,
nós que deixámos a língua subir
até perder o chão,
somos chamados a regressar
ao peso exacto das coisas.

A chamar sangue ao sangue.
A chamar morte à morte.
A chamar crime ao crime.
E a recusar, com toda a nossa humanidade,
a gramática que o torna aceitável.

§

Fátima Vale