29 junho, 2026

In need of a funeral / Preciso de um funeral


In need of a funeral
 
Even though no one has died and there is no one
to touch in the coffin the way my brother
touched the dead-man relation
whose name we didn’t know, whose features furrowed
like set sugar and whose black nails shone —
I have need of a funeral.
Even though death is not where I wish to go to,
down the wet green road through the straight black gate —
I have love in the morning, a candle, a radio
and a child’s smile blooms over my fireplace.
If I don’t walk to the river the river is by my window —
I have need of a funeral.
 
It came to me the day I stole communion in the cathedral,
not knowing what to do and squinting wildly,
that I had need of a funeral.
Something the man said as he tipped wine
and crushed bread felt helpful. He said sometimes a line
between what was and what is can be visible,
 
which is why we eat flesh and drink blood. Kirie.
I took flowers, an Oxfam veil, a bottle of Scotch, a speech
and made it to the sprawl of Milltown Cemetery
where I littered a hill with old shoes and milk teeth.
 
There was a pattern to the pattern my breath made on the air
as it extended towards the motorway.
 
 
Sinéad Morrissey
 
 
Preciso de um funeral
 
Embora ninguém tenha morrido e não haja ninguém
a quem tocar no caixão como o meu irmão
tocou num morto parental
cujo nome desconhecíamos, cujas feições estavam esburacadas
como açúcar cristalizado e cujas unhas pretas brilhavam -
Preciso de um funeral.
Embora a morte não seja para onde quero ir,
pelo caminho verde molhado, através do portão preto -
Sinto amor pela manhã, uma vela, um rádio,
e um sorriso infantil floresce sobre minha lareira.
Se não vou ao o rio, o rio está abaixo da minha porta -
Preciso de um funeral.
 
Mesmo que a morte não seja lugar onde queira ir,
descendo a húmida estrada verde através do portão preto direito -
Tenho amor de manhã, uma vela, um rádio
e o sorriso de uma criança floresce na minha lareira.
Se não for ao rio, o rio é ao pé da minha janela -
Preciso de um funeral.
 
Ocorreu-me no dia em que roubei a hóstia na catedral,
não sabendo o que fazer e semicerrando os olhos freneticamente,
que eu precisava de um funeral.
Algo que o homem disse enquanto deitava o vinho
e o pão esmagado parecia útil. Ele disse que às vezes uma linha
entre o que era e o que é pode ser visível,
 
por isso comemos carne e bebemos sangue. Kirie.
Levei flores, um véu da Oxfam, uma garrafa de uísque, um discurso
e consegui chegar ao campus do Cemitério de Milltown
onde instalei uma colina com sapatos velhos e dentes de leite.
 
Havia um padrão no padrão que a minha respiração fazia no ar
enquanto se estendia em direção à autoestrada.

25 junho, 2026

El mundo es un establo de muertos / O mundo é um estábulo de mortos

III
El mundo es un establo de muertos. Una flota de ataúdes bajo tierra. En las noches, remontan sus pasados, recuerdan de sus vidas caducas número y entrecalles. Nuestros muertos entran a casa sin premura, con llaves propias. Prenden cada hornilla de la estufa. Abren la puerta del refrigerador, se le sientan enfrente y, bañados por su luz fría, discuten con él en su idioma de gerundios mecánicos. Se cepillan los dientes con nuestros cepillos. Juegan a probarse nuestra ropa, se burlan de nuestros calcetines disparejos. Yo también, recién entrada y sin tocarlos, vi que tenían hambre, yo también, y sin tocarlos, quise gritar sus nombres, vi que habían dejado sus uñas de alejados centímetros en sus ataúdes y quise decirles yo también y quise yo, recién entrada, afilar mi rostro con la luz de sus voces. Yo, siendo quien soy, quien habla y desde dónde. Pero no hicieron caso. Respondieron apenas a mi cuerpo, como si fuera el recuerdo de sus vivos atravesándolos con un escalofrío invertebrado. Sentada en las orillas, los vi con bocas abiertas realizar el simulacro del llanto sin lágrimas. En realidad no están tristes; no les alcanza el cuerpo para tanto. La oscuridad les pesa como tierra mojada. Domesticados como mascotas insomnes, miran los semáforos de las calles vacías y tratan de recordar el nombre de los colores. Yo, recién entrada, quise olvidar para quedar tan trunca como ellos, pero en mis labios rojo, verde, amarillo, como quien come flores. Los desintegra el olvido de los vivos: cada facción olvidada se borra de sus rostros, se oscurece. Yo quise tomarlos de las manos, pero ellos se negaron a entrelazar sus dedos con los míos y supe que tampoco ahí pertenecía. Quise reconocer su celo, pero ellos nunca. Supe entonces que ni siquiera ahí, que yo tampoco, yo, recién entrada. Al salir de vuelta a la vida me pregunto: ¿se cansan los muertos de tanto aguantar la respiración? El suyo es un mundo submarino y sus movimientos son leves como de medusas que apenas creen en su cuerpo y se miran a través de sí mismas.
 
 
Elisa Díaz Castelo

 
III
O mundo é um estábulo de mortos. Uma frota de caixões debaixo da terra. À noite, eles recordam os seus passados, lembram as suas vidas caducas  e ruas transversais. Os nossos mortos entram em casa sem pressa, com chaves próprias. Acendem todas as bocas do fogão. Abrem a porta do frigorífico, sentam-se diante e, banhados pela sua luz fria, discutem com ele no seu idioma de gerúndios mecânicos. Escovam os dentes com as nossas escovas. Brincam a experimentar as nossas roupas, gozam com as nossas meias desemparelhadas. Eu também, acabada de entrar e sem os tocar, vi que estavam com fome, eu também, e sem os tocar, quis gritar os seus nomes, vi que tinham deixado as unhas a centímetros de distância nos seus caixões e quis dizer-lhes eu também e quis, acabada de entrar, amolar o meu rosto com a luz das suas vozes. Eu, sendo quem sou, quem fala e de onde. Mas eles não me deram ouvidos. Responderam apenas ao meu corpo, como se fosse a lembrança dos seus vivos a atravessá-los com um calafrio invertebrado. Sentada à margem, vi-os com as bocas abertas a realizar o simulacro do choro sem lágrimas. Na verdade não estão tristes ; o corpo não dá para tanto. A escuridão pesa-lhes como terra molhada. Domesticados como animais de estimação insones, olham para os semáforos das ruas vazias e tentam lembrar-se do nome das cores. Eu, acabada de entrar, quis esquecer para ficar tão incompleta quanto eles, mas nos meus lábios vermelho, verde, amarelo, como quem come flores. São desintegrados pelo esquecimento dos vivos : cada fação esquecida é apagada dos seus rostos, escurece. Quis apertar-lhes as mãos, mas recusaram-se a entrelaçar os dedos deles com os meus e soube que tampouco pertencia ali. Quis reconhecer o seu zelo, mas eles nunca. Soube então que nem sequer aí, que eu também não, acabada de entrar. Ao voltar para a vida, pergunto-me: os mortos cansam-se de tanto suster a respiração? O mundo deles é um mundo subaquático e os seus movimentos são leves como medusas que mal acreditam no seu corpo e se olham através de si mesmas.

22 junho, 2026

Sans oublier le signe / Sem esquecer o sinal


Sans oublier le signe de la véritable identité
 
L'image de la poupée me ressemblant offerte à mon père
par Annie Besnard, premier amour d'Antonin Artaud,
le masque d'Artaud sur la table de travail de mon père
les livres d'Artaud, le tableau d'Artaud l'exécration
du Père-Mère dans notre salon, la poupée de l'île
Saint-Louis (en porcelaine avec de longs cils noirs,
une petite robe en organdi bleu, la peau ivoire)
 
 
Sandra Moussempès
 
 
Sem esquecer o sinal da verdadeira identidade
 
A imagem da boneca que se parece comigo, oferecida ao meu pai
por Annie Besnard, primeiro amor de Antonin Artaud,
a máscara de Artaud na mesa de trabalho do meu pai
os livros de Artaud, o quadro de Artaud a execração
do Pai-Mãe no nosso salão, a boneca da ilha
Saint-Louis ( em porcelana com longos cílios pretos,
um pequeno vestido de organdi azul, pele de marfim )

20 junho, 2026

pour savoir où tu es / para saber onde estás

 
Je déplie une carte
pour savoir où tu es
 
quel chemin suivre
dans les méandres
 
si les animaux traversent
les champs déserts
 
si comme eux
un frisson court en moi.
 
 
Valérie Canat de Chizy ? Marie-Noëlle Agniau ?
 
 
Desdobro um mapa
para saber onde estás
 
que caminho seguir
nos meandros
 
se os animais atravessarem
os campos desertos
 
se como eles
um arrepio correr em mim.

18 junho, 2026

In the Municipal Pool / Na Piscina Autárquica

 
In the Municipal Pool
 
In the municipal pool
beside the parenting room
where I go, betimes,
to attend my inner child
 
water is falling
from the closed communal showers.
Clear, hot, chemical,
moving – utterly free –
 
steam ascends
to the foam white ceiling tiles.
In the farthest stall
where the drain grids hiss
 
an Italian woman
is chatting and laughing.
She is what I imagine
Elena Ferrante
 
might look like naked:
mature and handsome –
at ease in our world
of women without men.
 
Clear, hot, chemical,
moving – utterly free –
the waters flow,
are flowing and flown,
 
as outside sun shines
and history beats
on the roof
of the gynaeceum.
 
 
Leontia Flynn
 

 
Na Piscina Autárquica
 
Na piscina autárquica
ao lado da sala de parentes
onde vou, às vezes,
atender a minha criança interior
 
a água está em queda
nas cabines públicas de chuveiros.
Clara, quente, química,
movendo-se - absolutamente livre -
 
o vapor ascende
aos azulejos do teto de espuma branca.
Na barraca mais distante
onde o ralo chia pelas fendas
 
uma mulher italiana
conversa e ri.
Ela é como eu imagino
Elena Ferrante
 
pode parecer nua :
madura e bonita -
à vontade no mundo nosso
de mulheres sem homens.
 
Claras, quentes, químicas,
em movimento - completamente livre -
as águas correm,
fluem e levam-se,
 
enquanto lá fora brilha o sol
e a história bate
na cobertura
do gineceu.