mesmorra
17 junho, 2026
16 junho, 2026
15 junho, 2026
14 junho, 2026
sufrimiento fetal / sofrimento fetal
II
He caído en este cuenco de barro frío, una cueva de carne que, poco a poco, se seca. Soy la guardiana de una clepsidra que deja escapar el tiempo. Mis días gotean, se fugan. Y no entiendo la lengua de mi madre. Mi madre canta y no comprendo el golpeteo de sus sílabas. Canción de madera. Canción incendio. Qué oscura es la voz de mi madre. Y sus letras caen como plomo en mis oídos.
Alejandra Estrada Velázquez
II
Caí nesta tigela de barro frio, uma cova de carne que aos poucos se seca. Sou a guardiã de uma clepsidra que deixa o tempo escapar. Os meus dias gotejam-se, perdem-se. E não entendo a língua da minha mãe. A minha mãe canta e não entendo o bater das suas sílabas. Canção de madeira. Canção incêndio. Quão escura a voz da minha mãe. E as suas letras caem como chumbo nos meus ouvidos.
He caído en este cuenco de barro frío, una cueva de carne que, poco a poco, se seca. Soy la guardiana de una clepsidra que deja escapar el tiempo. Mis días gotean, se fugan. Y no entiendo la lengua de mi madre. Mi madre canta y no comprendo el golpeteo de sus sílabas. Canción de madera. Canción incendio. Qué oscura es la voz de mi madre. Y sus letras caen como plomo en mis oídos.
Alejandra Estrada Velázquez
II
Caí nesta tigela de barro frio, uma cova de carne que aos poucos se seca. Sou a guardiã de uma clepsidra que deixa o tempo escapar. Os meus dias gotejam-se, perdem-se. E não entendo a língua da minha mãe. A minha mãe canta e não entendo o bater das suas sílabas. Canção de madeira. Canção incêndio. Quão escura a voz da minha mãe. E as suas letras caem como chumbo nos meus ouvidos.
13 junho, 2026
12 junho, 2026
11 junho, 2026
o país subterrâneo
O PAÍS SUBTERRÂNEO
Portugal acorda cedo.
Ainda o sol não abriu os olhos
e já as mães empurram os filhos
para dentro das mochilas maiores do que eles.
As escolas esperam-nos.
Grandes aquários de luz fluorescente
onde os peixes aprendem a repetir o nome do oceano
sem nunca terem visto o mar.
Nas salas de aula
há crianças sentadas sobre pequenos vulcões.
Algumas chegam com galáxias inteiras nos bolsos.
Outras trazem florestas.
Outras transportam animais desconhecidos
a ronronar dentro do peito.
Ao fim de alguns anos
já quase todas sabem preencher quadrículas.
As florestas desapareceram.
Os animais aprenderam a obedecer.
As galáxias foram substituídas
por respostas de escolha múltipla.
Lá fora
o país continua a fabricar emigrantes
com a paciência artesanal
com que antigamente fabricava caravelas.
Não exporta cortiça.
Não exporta vinho.
Exporta futuros.
Todos os dias.
Em caixas cuidadosamente embaladas.
Os aeroportos são as verdadeiras maternidades nacionais.
Ali nascem os físicos.
Ali nascem os compositores.
Ali nascem os médicos.
Ali nascem os poetas.
Ali nascem os filhos que o país
não consegue sustentar sem lhes pedir perdão.
E é extraordinária a serenidade do desastre.
Nas praças continuam os pombos.
Nos cafés continua o açúcar.
Nos discursos continua a palavra
excelência.
Só a excelência continua ausente.
Entretanto
nos ministérios cresce uma vegetação estranha.
Trepadeiras de burocracia sobem pelas paredes.
Há fungos de pareceres.
Há líquenes administrativos.
Há corredores inteiros
ocupados por espécies protegidas de carimbo.
Os funcionários deslocam-se lentamente
para não assustar os formulários.
A cultura habita mais abaixo.
Na cave.
Entre os canos velhos.
Os poetas respiram por guelras.
Os pintores alimentam-se de pigmentos.
Os músicos queimam os móveis
para aquecer os instrumentos.
De vez em quando
aparece uma comitiva estrangeira.
Então abre-se uma porta.
Mostram-se três artistas.
Dois cientistas.
E uma bailarina.
Como quem mostra os seus linces ibéricos.
Depois volta a fechar-se tudo.
A conservação da raridade
é uma das especialidades nacionais.
Mas o país gosta dos mortos.
Os mortos não exigem orçamento.
Os mortos não apresentam candidaturas.
Os mortos não falham indicadores.
Por isso recebem estátuas.
Os vivos recebem palavras de incentivo.
E assim seguimos.
Como um velho paquete imóvel
convencido de estar a atravessar oceanos.
Como um relógio
que dá sempre a mesma hora
e se julga eterno por isso.
Como uma árvore
que exporta todos os frutos
e passa os anos
a contemplar os próprios ramos.
À noite
quando as cidades adormecem
ouve-se um ruído estranho
debaixo da terra.
Não são máquinas.
Não são comboios.
São milhões de asas.
As asas que as crianças desenharam
nos cadernos da escola.
As mesmas que lhes apagaram.
As mesmas que continuam lá.
Debaixo do país.
À espera.
§
Fátima Vale
10 junho, 2026
09 junho, 2026
08 junho, 2026
07 junho, 2026
06 junho, 2026
05 junho, 2026
todo ha de ser igual igual

sentada diante
da espenuca
até que esbarrighen
pórticos e frontespicios
toda a gama de extravíos
e cegueiras
precavido candil
plétora
pléroma
caladiña até ver as flores
máis simples
de tallada
simpleza-
eza-eza-eza-
respirando
apaisada-
mente
no meu abdome
todo ha de ser igual igual
trala derruba
mais eu que va
da espenuca
até que esbarrighen
pórticos e frontespicios
toda a gama de extravíos
e cegueiras
precavido candil
plétora
pléroma
caladiña até ver as flores
máis simples
de tallada
simpleza-
eza-eza-eza-
respirando
apaisada-
mente
no meu abdome
todo ha de ser igual igual
trala derruba
mais eu que va
Maite Dono
ortografia portuguesa :
sentada dianteda caruma
até que se esboroem
pórticos e frontispícios
toda a gama de aberrações
e cegueiras
Precavida candeia
plétora
pléroma
caladinha até ver as flores
mais simples
de talhada
singeleza-
eza-eza-eza-
respirando
oblongada-
mente
no meu abdómen
tudo há-de ser igual igual
depois do derrube
irei embora
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