21 maio, 2026

What Am I Afraid Of ? / medo de quê ?

 
What Am I Afraid Of?
 
The silence, the thoughts
that come with it, the sinking
suspicion that something more
is wrong with me than anyone
knows, including myself, including
the doctor who hooked me up
to the EKG machine and said
that though my heartbeat was irregular,
the irregularity was normal.
It was nothing to worry about.
The doctor told me there are two kinds
of people: unhealthy people who refuse
to get help, and healthy people
who always think they’re dying.
Nobody’s in between. But I’ve met
so many kinds of people:
people who stretch before
they get out of bed, people
who walk through life unstretched,
people who think their body
is a house and people who don’t
think of their body at all.
People who peel their carrots,
people who don’t. People who
stand on the roof and let the wind
make them cry. People who are afraid
to cry. People who step on all the leaves
on the sidewalk, people who look
straight ahead. There are people
who aren’t like me, they
don’t know the names
of all the different apples.
Once when I was cashiering
a woman said to me, “Wow,
you really know your kale.”
And once, at the butcher shop,
a man said to his dog, “That’s
the nice lady who smells like meat.”
I’m afraid I don’t know
what kind of person I am.
I thought I would get a chance
to do my life over in all the ways
anyone could think of: dying
would be like changing the channel.
I hate that you can’t hold on
to anything. I was washing an apple
and then I was coring it
and then it was cut—
and that was weeks ago now.
It was a Honeycrisp, and it lived up
to its name.
 
 
Sasha Debevec-McKenney
 
 
medo de quê ?
 
O silêncio, os pensamentos
que vêm com tal, o naufrágio
suspeita de que algo mais
está errado comigo mais do que alguém possa
saber, incluindo eu própria, incluindo
o médico que me ligou
à máquina de EKG e disse
que, embora meu batimento cardíaco fosse irregular,
a irregularidade era normal.
Não era nada de preocupar.
O médico disse-me que há dois tipos
de pessoas : pessoas não saudáveis que se recusam
a pedir ajuda e pessoas saudáveis
que estão sempre a pensar que estão a morrer.
Ninguém está no meio. Mas eu conheci
tantos géneros de pessoas :
pessoas que se esticam antes
de saírem da cama, as pessoas
que caminham pela vida sem se esticar,
pessoas que pensam que o seu corpo
é uma casa e pessoas que não
pensam nunca no corpo.
Pessoas que descascam as suas cenouras,
pessoas que não. Pessoas que
ficam no telhado e deixam o vento
fazê-las chorar. Pessoas que têm medo
de chorar. Pessoas que pisam todas as folhas
no passeio, pessoas que olham
para a frente. Há pessoas
que não são como eu, eles
não sabem os nomes
das espécies todas de maçãs.
Uma vez, quando estava a pagar
uma mulher disse-me : " Eh pá,
realmente conheces a tua couve."
E uma vez, no talho,
um homem disse ao seu cão : " Isto é
a senhora simpática que cheira a carne."
receio que eu não saiba
que tipo de pessoa sou.
Pensei que teria uma oportunidade
de refazer a minha vida em todos os sentidos
qualquer um podia pensar que : morrer
seria como mudar de canal.
Detesto o não conseguires agarrar-te
a qualquer coisa. Eu estava a lavar uma maçã
e então eu estava a descascá-la
e então foi cortada-
e isso foi há semanas agora.
Era uma maçã crocante de mel, e foi coerente
com o seu nome.
 

18 maio, 2026

Je ferme les yeux / Fecho os olhos


Je ferme les yeux
et mon regard est vide
 
mes yeux
sont grands ouverts
et je ne vois rien
 
on me parle
du film blanc
qui obstrue
la vue quand la fatigue
excède
 
je parle
d’un dépassement non
pas la couleur mais
l’impression
diffuse d’
 
un corps qui
tangue comme on
nage ou comme
- l’on
se noie.
 
 
Lénaïg Cariou
 
 
Fecho os olhos
e o meu olhar está vazio
 
os meus olhos
são grandes abertos
e não vejo nada
 
falam comigo
do filme branco
que obstrue
a vista quando a fadiga
excede
 
falo
de um excesso não
pela cor mas
a impressão
difusa de
 
um corpo que
balança como quem
nada ou como
- nos
afogamos.


13 maio, 2026

La petició / O pedido


La petició
 
Enllumena l’anvers de la pedra,
la part interior de la closca,
la semiesfera oculta de l’ull.
 
Desentenebra tot allò
que té massa i ocupa un volum
però que no pots detectar
amb la retina.
 
Apropa la llanterna
al que s’escapa del rang òptic,
encén la contradicció
de tenir ulls i no veure-hi.
 
Clarifica allò que emet fotons
a què la nostra pupil·la no és sensible.
 
Deixa’m veure
el naixement de les estrelles,
l’expansió de l’univers,
la teva llengua anticipant-se a la meva.
 
Il·lumina’m
allò que no veuré mai.
 
 
Anna Gual
 
 
O pedido
 
Alumia o anverso da pedra,
a parte interior da casca,
o hemisfério oculto do olho.
 
Desvenda tudo aquilo
que tem massa e ocupa um volume
mas que não consegues detetar
com a retina.
 
Abeira a lanterna
do que escapa da gama óptica,
acende a contradição
de ter olhos e não ver.
 
Clarifica o que emite fotões
a que a nossa pupila não é sensível.
 
Deixa-me ver
o nascimento das estrelas,
a expansão do universo,
a tua língua antecipando-se à minha.
 
Ilumina-me
o que nunca hei-de ver.


12 maio, 2026

A internacional dos rios

 

Il était une fois une rivière, L, entravée par des barrages, de grandes infrastructures industrielles, des villes installées sur ses rives…
L avait longtemps été considérée comme une ressource propice aux humains.
Le langage employé à son endroit était, sans surprise, celui d’une économie utilitariste qui
considérait les éléments du monde comme étant au service des intérêts humains.
Certains cherchaient bien à protéger L, mais à la vérité, on l’exploitait inlassablement.
Au cours des dernières années, des agriculteurs s’étaient d’ailleurs arrangés avec les agences de l’État pour creuser de gigantesques bassines afin d’irriguer leurs champs pendant les périodes de sécheresse.
Des militants venus des quatre coins du pays avaient bien tenté de s’y opposer, mais la répression fut féroce.
À l’amont, à l’aval, c’était toujours le même verdict. L dépérissait. En été, elle disparaissait, laissant la place à une vaste étendue de sable. Et le glacier où elle prenait sa source avait disparu.
Cela dit – était-ce une bonne nouvelle? – depuis quelques mois, L avait changé de
statut. Elle avait cessé d’être une  « chose », elle était devenue une « personne ».
 
Camille de Toledo
 
Era uma vez um rio, L, cercado por represas, grandes infraestruturas industriais, cidades instaladas nas suas margens...
Há muito que L é considerado um recurso benéfico para os seres humanos.
A linguagem utilizada em seu favor era, sem surpresa, a de uma economia utilitarista que considerava os elementos do mundo como estando ao serviço dos interesses humanos.
Alguns tentaram proteger L, mas na verdade, foi explorado incansavelmente.
Nos últimos anos, os agricultores tinham de facto feito acordos com as agências do Estado para cavar enormes bacias a fim de irrigar os seus campos durante os períodos de seca.
Militantes vindos de todos os cantos do país tentaram opor-se, mas a repressão foi feroz.
A montante, a jusante, era sempre o mesmo veredicto. L murchava. No verão, desaparecia, dando lugar a uma vasta extensão de areia. E o glaciar onde nascia tinha desaparecido.
Dito isto - foi uma boa notícia? - nos últimos meses, L tinha mudado de estatuto. Deixou de ser uma " coisa ", tornou-se uma " pessoa ".