18 maio, 2026

Je ferme les yeux / Fecho os olhos


Je ferme les yeux
et mon regard est vide
 
mes yeux
sont grands ouverts
et je ne vois rien
 
on me parle
du film blanc
qui obstrue
la vue quand la fatigue
excède
 
je parle
d’un dépassement non
pas la couleur mais
l’impression
diffuse d’
 
un corps qui
tangue comme on
nage ou comme
- l’on
se noie.
 
 
Lénaïg Cariou
 
 
Fecho os olhos
e o meu olhar está vazio
 
os meus olhos
são grandes abertos
e não vejo nada
 
falam comigo
do filme branco
que obstrue
a vista quando a fadiga
excede
 
falo
de um excesso não
pela cor mas
a impressão
difusa de
 
um corpo que
balança como quem
nada ou como
- nos
afogamos.


13 maio, 2026

La petició / O pedido


La petició
 
Enllumena l’anvers de la pedra,
la part interior de la closca,
la semiesfera oculta de l’ull.
 
Desentenebra tot allò
que té massa i ocupa un volum
però que no pots detectar
amb la retina.
 
Apropa la llanterna
al que s’escapa del rang òptic,
encén la contradicció
de tenir ulls i no veure-hi.
 
Clarifica allò que emet fotons
a què la nostra pupil·la no és sensible.
 
Deixa’m veure
el naixement de les estrelles,
l’expansió de l’univers,
la teva llengua anticipant-se a la meva.
 
Il·lumina’m
allò que no veuré mai.
 
 
Anna Gual
 
 
O pedido
 
Alumia o anverso da pedra,
a parte interior da casca,
o hemisfério oculto do olho.
 
Desvenda tudo aquilo
que tem massa e ocupa um volume
mas que não consegues detetar
com a retina.
 
Abeira a lanterna
do que escapa da gama óptica,
acende a contradição
de ter olhos e não ver.
 
Clarifica o que emite fotões
a que a nossa pupila não é sensível.
 
Deixa-me ver
o nascimento das estrelas,
a expansão do universo,
a tua língua antecipando-se à minha.
 
Ilumina-me
o que nunca hei-de ver.


12 maio, 2026

A internacional dos rios

 

Il était une fois une rivière, L, entravée par des barrages, de grandes infrastructures industrielles, des villes installées sur ses rives…
L avait longtemps été considérée comme une ressource propice aux humains.
Le langage employé à son endroit était, sans surprise, celui d’une économie utilitariste qui
considérait les éléments du monde comme étant au service des intérêts humains.
Certains cherchaient bien à protéger L, mais à la vérité, on l’exploitait inlassablement.
Au cours des dernières années, des agriculteurs s’étaient d’ailleurs arrangés avec les agences de l’État pour creuser de gigantesques bassines afin d’irriguer leurs champs pendant les périodes de sécheresse.
Des militants venus des quatre coins du pays avaient bien tenté de s’y opposer, mais la répression fut féroce.
À l’amont, à l’aval, c’était toujours le même verdict. L dépérissait. En été, elle disparaissait, laissant la place à une vaste étendue de sable. Et le glacier où elle prenait sa source avait disparu.
Cela dit – était-ce une bonne nouvelle? – depuis quelques mois, L avait changé de
statut. Elle avait cessé d’être une  « chose », elle était devenue une « personne ».
 
Camille de Toledo
 
Era uma vez um rio, L, cercado por represas, grandes infraestruturas industriais, cidades instaladas nas suas margens...
Há muito que L é considerado um recurso benéfico para os seres humanos.
A linguagem utilizada em seu favor era, sem surpresa, a de uma economia utilitarista que considerava os elementos do mundo como estando ao serviço dos interesses humanos.
Alguns tentaram proteger L, mas na verdade, foi explorado incansavelmente.
Nos últimos anos, os agricultores tinham de facto feito acordos com as agências do Estado para cavar enormes bacias a fim de irrigar os seus campos durante os períodos de seca.
Militantes vindos de todos os cantos do país tentaram opor-se, mas a repressão foi feroz.
A montante, a jusante, era sempre o mesmo veredicto. L murchava. No verão, desaparecia, dando lugar a uma vasta extensão de areia. E o glaciar onde nascia tinha desaparecido.
Dito isto - foi uma boa notícia? - nos últimos meses, L tinha mudado de estatuto. Deixou de ser uma " coisa ", tornou-se uma " pessoa ".



09 maio, 2026

amandiers / amendoeiras



Anxo Pastor

Il est bien vrai que nous sommes dans une époque tragique. Mais trop de gens confondent le tragique et le désespoir. « Le tragique, disait Lawrence, devrait être comme un grand coup de pied donné au malheur. » Voilà une pensée saine et immédiatement applicable. Il y a beaucoup de choses aujourd’hui qui méritent ce coup de pied.
Quand j’habitais Alger, je patientais toujours dans l’hiver parce que je savais qu’en une nuit, une seule nuit froide et pure de février, les amandiers de la vallée des Consuls se couvriraient de fleurs blanches. Je m’émerveillais de voir ensuite cette neige fragile résister à toutes les pluies et au vent de la mer. Chaque année, pourtant, elle persistait, juste ce qu’il fallait pour préparer le fruit.
 

Albert Camus
 

É bem verdade que estamos numa época trágica. Mas há muita gente que confunde o trágico com o desespero. “ O trágico (dizia Lawrence), devia ser um imenso pontapé desferido na infelicidade. “. Eis um pensamento são e imediatamente aplicável. Há muitas coisas hoje que merecem esse pontapé.
Quando vivia em Argel, tinha sempre paciência no inverno porque sabia que numa noite, uma única noite fria e pura de fevereiro, as amendoeiras do Vale dos Cônsules se cobririamam de flores brancas. Ficava maravilhado ao ver depois essa neve frágil resistir a todas as chuvas e ao vento do mar. Todos os anos, no entanto, ela persistia, apenas o necessário para preparar a fruta.