Sobre Tel Aviv,
milhares de corvos
vêm lembrar à manhã
que toda a claridade transporta a sua sombra.
Como se o céu tivesse sido rasgado
por uma mão de vento e cinza,
voam.
Voam como uma escrita sem tradução
que, no entanto, o corpo entende
na parte mais antiga da dor.
Vê-se a cidade
e o que a cidade tenta não ver.
Vê-se o muro como um hábito do medo.
Vê-se o mapa dobrado sobre a mesa
como se a terra fosse de papel.
Vê-se a oliveira cortada
e a seiva a subir, a subir, a subir,
como sobe uma memória
no tronco de uma mãe.
Não há símbolo bastante vasto
para caber no que está vivo.
Não há superstição assaz profunda
para explicar o voo.
Os corvos sabem apenas
o peso do ar antes da queda,
a alteração mínima da matéria
quando a violência entra no mundo
e o mundo finge que não treme.
Mas a pedra treme.
A água subterrânea treme.
A menina que encosta a mão à poeira treme
sem saber o nome disso.
O olhar dela não pede absolvição, nem história,
nem sequer justiça.
Pede apenas que o mundo
não seja mais duro do que o coração que a bombeia.
E há crianças canoras
a nascer noutros jardins,
com a boca cheia de romãs
e de ausência,
com o primeiro choro a subir
como um beija-flor sobre os telhados.
Há tapetes
com labirintos de ouro gasto.
Há nomes que não se deixam apagar pelo silvo do terror.
Há avós dentro das sementes.
Há casas que continuam de pé
na respiração de quem foi expulso.
Tel Aviv escuta
o rumor da oliveira,
o sal do mar,
a língua enterrada,
a frase interrompida,
a fruta que amadurece
mesmo longe da árvore.
Os corvos passam
e o seu voo não pertence a ninguém.
Atravessam a antiga ferida da altura,
onde os homens
decidem quem pode existir inteiro
e quem deve viver em fragmentos.
Nenhum deus assina este tempo.
Nenhum céu lava a mão que lança o projéctil.
A matéria tem a sua memória.
E a terra, quando parece vencida,
guarda no fundo uma fidelidade mineral
que ninguém consegue governar.
Tel Aviv,
é a claridade onde os corvos escrevem
a negra gramática do real.
É o lugar onde a noite esvoaça
sem cair,
porque cair seria terminar
e o que existe ainda
não termina:
muda de forma,
entra na respiração,
volta à seiva,
volta à pedra,
volta ao olhar da menina,
volta à boca da terra
que ainda pronuncia
o nome do que lhe foi arrancado.
E a noite que esvoaça
não se detém sobre Tel Aviv,
desliza,
apenas desliza,
tocando com a asa
a indiferença das nuvens.
§
Fátima Vale
