09 março, 2026

El resto salvaje / O resto selvagem

 
El resto salvaje
 
Lo que no sabe rendirse
se queda con nosotros:
solo lo que no logramos retener.
 
Las paredes tienen un modo honesto de caerse,
no como las patrias,
que se pudren por dentro como madera vieja
mientras la Historia —esa bestia ciega—
nos cambia la piel sin avisar.
 
Vi ciudades vaciarse estando llenas.
Ocurre cuando les robas el nombre:
las cosas, si dejas de llamarlas,
dejan de acudir.
 
El idioma fue el primero en desertar.
Se volvió un animal asustadizo,
un nudo de silencios,
para no terminar siendo otra estafa.
 
Por eso escribo.
No busco apagar el fuego:
busco salvar un sorbo de agua
entre las llamas.
No para extinguir el incendio,
sino para que la lengua no olvide
el oficio de la frescura.
 
Durar no es lo mismo que quedarse.
Permanecer es ser fiel
a ese primer escalofrío,
a esa mancha de luz que no se deja
domesticar por el ruido del mundo.
 
No me fío de los mapas con respuestas,
ni de las banderas que pasan factura,
ni de las palabras que ya vienen masticadas.
 
Me quedo con lo que resiste sin permiso:
un brillo fuera de lugar,
una cicatriz que no encaja,
una fisura que se niega a cerrarse.
 
Si algo sobrevive al naufragio,
no será el inventario de lo que hicimos,
sino ese resto salvaje,
esa pequeña parte de nosotros
que nunca aprendió a bajar la cabeza.
 
 
Deborah Nofret
 
 
O resto selvagem
 
O que não sabe render-se
fica connosco:
apenas o que não conseguimos reter.
 
As paredes têm uma maneira honesta de cair,
não como as pátrias,
que apodrecem por dentro como madeira velha
enquanto a História - essa besta cega -
nos muda a pele sem avisar.
 
Vi cidades esvaziadas estando cheias.
Acontece quando lhes roubas o nome:
as coisas, se deixas de as chamar,
deixam de acudir.
 
A língua foi a primeira a desertar.
Tornou-se um animal amedrontado,
um nó de silêncios,
para não acabar sendo mais uma fraude.
 
Por isso escrevo.
Não procuro apagar o fogo:
procurei salvar um gole de água
entre as chamas.
Não para extinguir o incêndio,
mas para que a língua não esqueça
o ofício da frescura.
 
Durar não é o mesmo que ficar.
Permanecer é ser fiel
a esse primeiro calafrio,
a essa mancha de luz que não se deixa
domesticar pelo barulho do mundo.
 
Não confio em mapas com respostas,
nem nas bandeiras que passam fatura,
nem das palavras que já vêm mastigadas.
 
Fico com o que resiste sem licença:
um brilho fora de lugar,
uma cicatriz que não encaixa,
uma fissura que se recusa a ser fechada.
 
Se alguma coisa sobrevive ao naufrágio,
não será o inventário do que fizemos,
senão esse resto selvagem,
essa pequena parte de nós
que nunca aprendeu a abaixar a cabeça.


07 março, 2026

Swallows on the River / Andorinhas no Rio

 


Anxo Pastor

Swallows on the River
 
Sept. 3. CLOUDY and wet, and wind due east; air without palpable fog, but very heavy with moisture—welcome for a change. Forenoon, crossing the Delaware, I noticed unusual numbers of swallows in flight, circling, darting, graceful beyond description, close to the water. Thick, around the bows of the ferry-boat as she lay tied in her slip, they flew; and as we went out I watch’d beyond the pier-heads, and across the broad stream, their swift-winding loop-ribands of motion, down close to it, cutting and intersecting. Though I had seen swallows all my life, seem’d as though I never before realized their peculiar beauty and character in the landscape. (Some time ago, for an hour, in a huge old country barn, watching these birds flying, recall’d the 22d book of the Odyssey, where Ulysses slays the suitors, bringing things to eclaircissement, and Minerva, swallow-bodied, darts up through the spaces of the hall, sits high on a beam, looks complacently on the show of slaughter, and feels in her element, exulting, joyous.)
 
 
Walt Whitman
 
 
Andorinhas no rio
 
3 de Setembro - Um dia nublado e húmido, com vento para leste ; embora não veja neblina, o ar parece denso, encharcado ; uma mudança que é de agradecer. De manhã, enquanto atravessava o Delaware, reparei numa quantidade inaudita de andorinhas voando à beira da água - em círculos, a pique - com uma graça indescritível. Voavam muito juntas sobre a proa do barco enquanto ainda estava amarrado ; e ao zarpar, observei as suas velozes e remoinhadas rendas - em linhas entre-cortadas, intersectadas -, para lá da cabeceira do cais, atravessando e roçando a ampla corrente. Embora tenha visto muitas andorinhas na minha vida, achei que nunca tinha admirado seu caráter e beleza únicos na paisagem. ( Há algum tempo, num velho celeiro enorme, lembrei-me - enquanto observava o voo desses pássaros - do Livro 22 da Odisseia, no qual Ulisses mata os pretendentes para esclarecer os seus assuntos ; e Minerva, encarnada numa andorinha, sobe até ao teto do salão, senta-se numa viga e observa alegremente o espetáculo da matança, sentindo-se no seu elemento : alegre e exultante ).


05 março, 2026

İyi şeyler / As coisas boas


İyi şeyler, sık kullanılan patika bir yolda
Bitmesine izin verilmeyen otlar gibi
Yola yakın ama ormandan yürüyen
Tedbirli bir izafiyet verir
Bunu öğrendik ve biraz yaşlandıkça
Yaşamak küçük yer dedik
İlk fırsatta aramadık, kırık bir boyun
Damar damar üstüne rastlaştık
Bulamadık ellerimizi koyacak yer
—Sonradan çok düşündüm. Ellerimin fazlalığı üzerine. Apandist gibi benim
ellerim. Aldırsam aslında. Dokunduğum her şeyin aslında bana
dokunduğunu düşünmenin sancısını da aldırmış olurum. Nekahet dönemi
bitinceye kadar kulaktan beslerler beni.—
 
Ortadan ikiye böldük ölümü
Yarısı şimdi yarısı rüzgârlara dolan çorak
Madem kurcalanmış kapıların arkası
Yalama olmuş nefeslerdir çağdaş mutluluğumuz
Hızlı bir toprak girer fotoğrafa, çolak bir koku
Kötülüğün merhameti derdim evi terk eden oda
Ve odanın kaçtığı şehir
Tanıdık kimsesi yok hiçbir adamda
 
Bir avuç toprağı suya bir avuç beni
Suyu bulandırdık mutsuzluktan daha ağır
Kaçamadıkça geçemedikçe suyu yeniden
Eskiden basacak taş bulup da geçtiğim
Her göçte bana iade edildi yanın yören
 
—Rüya görmenin nasıl bir şey olduğunu hep merak ettim. Arkadaşlardan
duyarım hep. Merak ediyor insan tabi. Uygun bir yorgunluk ve kaygı
bozukluğunu gecenin en uygun zamanına denk getirme falan derken, bana
da nasip oldu. Bir mağazada buldum kendimi. Otellerde unuttuğum eşyaları
satıyorlardı. Alabildiğim kadar aldım. Limitim yetmedi. Teker teker bırakmak
zorunda kaldım. Guadalajara’da hediye ettikleri bir ikona kaldı elimde
sadece. Pos bıyıklı bir Narko aziz. Kös kös çıktım dükkândan. Bir toz bulutu
kapladı üzerimi. Silkelendim, şaşal sudan biraz yüzüme döktüm. Ceplerimi
yokladım. Kışlıkların cebinde unutulan tarzda bir şeyler buldum. Anlamaya
çalıştım. Derken uyandım. Elimle diğer yastığı yokladım. Her şey
yolundaydı. Sonraları bazı başka rüyalar da gördüm. —
 
Sen de oradaymışsın ama başka biriymişsin
Çok derin ısırmışsın rüyalarımı
Sinirlenince şakaklarımda açan mor bir çiçek
Koparıp sana vermişim, çok üzülmüşüz
Öyle çok ki neredeyse bir sevinç bu
 
Şer gününde dünya içeri girmesin diye
Işıkları söndürdük, kükreyen kırklardan geçtik
Tekrar yıktık aldığımız kaleleri
Şehrin kapıları kayboldu şehrin içinde
Gök, mavi bir sofra bezi gibi silkelendi üzerimize
Adım, çocukların ilk harfleriyle yazıldı
Yine de acımızı bulamadım listelerde…
 
Sen de oradaymışsın ama başka biriymişsin
Dolmuştan inmiş Yenisahra’da bir bedevi
Saçlarından kurtulan küçük kulaklarına
Elden ele uzatılan şarkılar taşımışız
Öyle ya, bazen de herkesten iyidir ölümün sahnesi…
 
Artık biliyorum o sorunun cevabını, neredeyim?
Görünmez şeyler görünür oldu yokluğunda, buradayım!
İmanın, umutsuzluğu en çok andırdığı yerde
Hani vedalaşıp aynı yöne doğru yürümüştük…


Furkan Çalışkan
 
 
As coisas boas, como a erva em caminho muito trilhado
que não acaba de crescer,
ou caminhar pelo bosque, mas perto da senda,
oferecem-nos uma relatividade prudente.
Aprendemos isso
e quando crescemos um pouco
dissemos que viver era um lugar pequeno.
Não procuramos à primeira, um pescoço partido [1]
confluimos veia a veia,
sem encontrar um lugar onde por as mãos.
 
- Depois pensei muito. Sobre o excesso que as minhas mãos constituem. Um apêndice. Se as tirasse, também me tiraria a dor de pensar que tudo o que toco me está a tocar. Alguém me alimentaria através dos meus ouvidos até que o período de convalescença chegasse ao fim -.
 
Partimos para a morte em dois :
uma metade é agora, e a outra, um deserto à mercê do vento.
Dado que as portas foram forçadas [2],
a nossa felicidade contemporânea consiste em fôlegos gastos [3].
Uma terra veloz entra em cena, um aroma maneta.
A misericórdia do mal, assim chamaria ao quarto que
abandona a casa.
Na cidade de onde fugiu
ninguém conhece ninguém.
 
Um punhado de terra à água, um punhado de mim.
Entupimos a água tornando-a mais pesada do que a desgraça.
Não conseguimos fugir, não conseguimos atravessar de novo a água
que uma vez transpus usando uma pedra onde por o pé.
Cada migração devolveu-me ao teu lado.
 
- Sempre me perguntei como seria sonhar. Era o que ouvia aos meus
amigos. Claro que me despertava a curiosidade. Com a combinação perfeita de
cansaço e ansiedade e todas essas coisas no momento exato da noite,
aconteceu. Dei por mim então numa loja. Estavam a vender as coisas de que eu me esquecera em hotéis. Quis ficar com o máximo que pude. Exagerei. Tive que
as deixar uma por uma. Apenas um boneco, obséquio de Guadalajara, ficou na
minha mão. Um narco-santo com um grande bigode. Saí da loja abatido.
Envolto em nuvem de pó. Sacudi-me, e deitei um pouco de água na
cara. Rebusquei nos meus bolsos. Encontrei o tipo de coisas que se esquecem
nos bolsos da roupa de inverno. Tentei encontrar o sentido. Depois,
acordei. Procurei às apalpadelas o outro travesseiro. Estava tudo bem. Mais
tarde, outros sonhos vieram -
 
Tu também lá estavas, mas eras outra pessoa.
Mordeste os meus sonhos com tanta força
que ao irritar-me, uma flor violeta se abriu nas minhas têmporas
Arranquei-a e dei-ta ; ficamos muito tristes.
Tanto, que quase se varia em alegria.
 
Para nos protegermos do mundo naquele fatídico dia,
apagamos as luzes, atravessamos os quarenta rugidos [4],
derrubamos os fortes que um dia conquistamos.
As portas da cidade desapareceram dentro dela.
O céu tremeu sobre as nossas cabeças como uma toalha azul.
O meu nome estava escrito com as iniciais das crianças.
E ainda assim, não consegui ver a nossa dor nas listas...
 
Tu também lá estavas, mas estavas outra pessoa.
Um beduíno que saiu de um dolmuş em Yenisahra [5].
Levamos canções passadas de mão em mão
às tuas pequenas orelhas, que sobressaíam do teu cabelo.
Às vezes o cenário da morte supera qualquer outro.
 
Agora sei a resposta à pergunta : onde estou?
As coisas invisíveis tornaram-se visíveis na tua ausência : estou aqui!
Aqui, onde a fé se assemelha mais ao desespero,
lembras-te?, onde nos despedimos e continuamos caminhando na
mesma direção...
 
 
[1] Em turco, a conceptualização da tristeza está muito ligada a metáforas corporais. Por exemplo, um pescoço dobrado ( boynu bükük ) indica desespero (B aş e Büyükkantarcıoğlu, 2019). Neste contexto, um pescoço quebrado é uma hipérbole do pescoço dobrado, indicando uma tristeza ainda mais profunda, além de uma desconexão entre o coração e a cabeça.
 
[2] No original, o autor emprega o verbo " kurcalamak " ( kurcalanmış ), que aqui quer indicar uma força insistente para abrir uma porta fechada. O autor faz referência a uma fechadura amassada e gasta por tanto ser forçada. Nas palavras do autor, no nosso afã de abrir a porta que nos daria acesso a um conhecimento antigo, perdemos a perspetiva e acabamos atribuindo a felicidade e sabedoria que buscamos à própria fechadura, e não à verdade que aguarda atrás da porta.
[3] No original turco, usa-se um termo mecânico para descrever uma rosca de parafuso que se desgastou e não encaixa mais ( yalama olmuş ). Não é apenas cansaço, é uma disfunção mecânica da felicidade contemporânea.
 
[4] Quarenta rugidores ( cfr. Vito Dumas,Argentina ), , é um termo náutico que descreve uma zona marítima de fortes ventos existente entre as latitudes 40° e 50° S dos oceanos austrais. No poema funciona como uma metáfora do caos emocional e, possivelmente, da crise dos 40 anos de idade.