03 fevereiro, 2026

O RITO VAZIO DO NOME-DO-PAI

 
ABERTURA     
O mito forja-se em comum, a quente,
com o ferro em brasa do ressentimento.
E o neurótico já não guarda a dor para si.
Ergue um altar à própria ferida,
e convoca uma nação de reflexos
que devolvem, deformado,
o vazio a que chama eu.
 
Entretanto, Lisboa respira por dentro das fachadas de azulejo;
os eléctricos passam-lhe por dentro das veias;
o Tejo é um olho que não dorme.
E o mito ganha fôlego.
A palavra-Pai é cuspida e bendita ao mesmo tempo.
 
PROCLAMAÇÃO
ELE encarna a palavra-Pai.
UM Pai da ordem.
UM Pai das fronteiras.
UM Pai da lei proclamada com a boca cariada.
Mas o trono é um tabuleiro de cartas
soprado pelo vento do Outro.
Cartas molhadas. Cartas queimadas.
Cartas com nomes de santos e de bancos.
 
Vasculha os armazéns da história,
recolhe significantes gastos,
palavras-amuleto polidas até perderem o corpo,
e brande-as contra o mundo.
Esfrega-as no peito
até brilharem por fora
e soarem ocas por dentro.
Invoca um Pai morto.
E sabe.
Por isso a sua fala é um luto em circuito fechado.
É uma repetição ritual, marcha de autómata;
o comício como missa invertida:
re-ENCONTRAR (sempre)
a falta que o funda.
 
É contador de DÉBITOS IMAGINÁRIOS.
Instala facturas sobre os corpos.
Transfere a culpa para vozes estranhas.
FACTURA O FUTURO A QUEM JÁ VEIO.
“DEVEM-NOS” — proclama —
e empilha factos que só existem enquanto medo.
A dívida é inapagável
porque o que lhe falta
é precisamente o reconhecimento simbólico
que jamais concederá.
Então inventa inimigos.
RATOS metafóricos — / roem / as / paredes / do / consenso.
RATOS com bilhete de identidade.
Ratos com oração.
Ratos com facturas.
Ele oferece-se como cobrador supremo,
gestor da angústia colectiva,
director clínico de uma nação revoltada.
 
O MITO é uma cápsula de gozo envenenado.
PROMETE INTEIREZA.
Mas o que entrega
é a cavidade.
A fractura.
O resto.
Precisa do traidor,
do bode-expiatório,
da ameaça que legitima.
Sem o fantasma do Outro malévolo
a construção implode, como igreja sem altar,
como praça sem mágoa.
A sua palavra não procura o diálogo.
PROCURA A EXCITAÇÃO DO ÓDIO.
Procura um afecto que, por um instante,
faz acreditar na plenitude.
Fala sempre para um objecto perdido.
— UMA PÁTRIA-FANTASMA. —
Um passado fabricado
que só existe
em CONTRASTE com o pânico presente.
O mito pessoal → EPIDEMIA.
O neurótico → XAMÃ.
RECEITA o seu sintoma como remédio colectivo.
Mas o inconsciente NÃO se pluraliza.
REPETE-SE.
O conjunto que se agarra ao mito alheio
para não encarar o próprio buraco
limita-se a ECOAR
os mesmos rituais de desprezo.
NO FIM: o espectáculo.
Um homem que, para não ver
que o seu desejo é desejo-do-Pai,
arrastou um país inteiro
para representar, com ele,
a mesma farsa.
 
A CORTINA cairá.
as cordas do palco serão roídas
pelos ratos inventados.
E o VAZIO — intacto, soberano —
escolherá o próximo actor.



 
Fátima Vale
In : O Rito Vazio Do Nome Do Pai (livro em construção)

"No meio do inferno, há alguém, ou algo, que respira o cosmos como resistência mínima: a prova de que nem tudo foi capturado. Essa respiração não salva o mundo, mas impede o fecho total do sentido."
 

30 janeiro, 2026

contre les figures d'autorité / contra as figuras de autoridade


 

 

J’aime comprendre ce qui fait qu’on fait de qu’on fait
Gosto de compreender o que faz com que se faça o que fazemos
 
La mort de Alex Pretti abattu hier par des agents de l'ICE alors qu'il filmait sans représenter de danger révèle les normes de la culture dans laquelle cette agence recrute. L'ICE ne fait pas qu'appliquer la loi : elle transforme un imaginaire de suprématie et de virilisme en pouvoir d’État. Car on ne devient pas agent de l'ICE par hasard. Le recrutement pulse dans des clubs de tir, salons d'armes, salles de musculation identitaires, espaces où la force et la domination masculine sont valorises. Cette culture fabrique des agents pour qui l'arme précède le droit, et pour qui certaines vies deviennent immédiatement suspectes, sacrifiables.
 
 
Samah Karaki
 
 
A morte de Alex Pretti, morto ontem por agentes da ICE enquanto filmava sem representar perigo, revela as normas da cultura em que esta agência recruta. A ICE não faz apenas cumprir a lei: transforma um imaginário de supremacia e masculinidade em poder de Estado. Porque não nos tornamos agentes da ICE por acaso. O recrutamento pulsa em clubes de tiro, salões de armas, salas de musculação identitárias, espaços onde a força e a dominação masculina são valorizadas. Esta cultura produz agentes para quem a arma precede o direito, e para quem algumas vidas se tornam imediatamente suspeitas, sacrificáveis.
 

gadanha em cachão

 


John Arnison

28 janeiro, 2026

Gochos / Cerdos

 
Gochos
 
Rucaben semilles, los brotos del ablanu, raíces, l’arna deles
castañares. Hermanos a nós, prisioneros del vuelu ciegu
de la historia, fozaben na tierra furiosos, insaciables,
comíen llombrices, insectos, ratos, topinos muertos,
basura, la mierda esparcío nes cunetes, los sos propios
escrementos. Más tarde, aquella carne suyo afumiaba nel
nuestru platu, suculenta, perfecta. Y la vida renovábase
otra vuelta
nesa
zona
escura.
 
 
Berta Piñán
 
 
Cerdos
 
mastigavam sementes, brotos de avelã, raízes,
casca de castanheiros. Iguais a nós, prisioneiros do
voo cego da história, esgravatavam a terra, furiosos,
insaciáveis, comiam vermes, insetos, ratos, ratinhos
mortos, lixo, merda espalhada em valas, os seus
próprios excrementos. Mais tarde, essa carne deles
fumegava no nosso prato, suculenta, perfeita. E a vida
voltava a renovar-se
nessa
zona
escura.