03 maio, 2026

Árvores são casas de pássaros

 

Árvores são casas de pássaros

La imagen que piensa, la palabra que respira

Árvores são casas de pássaros altera la jerarquía habitual entre ilustración y poesía. Aquí la imagen no acompaña al poema: lo antecede, lo provoca, lo obliga a existir de otro modo. José Efe no escribe “sobre” los dibujos; escribe después de ellos. Su poesía nace de una escucha visual, de una atención precisa, casi respiratoria, en la que el trazo ya ha fijado una emoción y el poema entra para trabajarla, no para sustituirla.

Las ilustraciones —realizadas por distintos artistas— no funcionan como ornamento ni como relato paralelo. Se sostienen como formas autónomas: árboles tensos, ramas que vibran, pájaros que actúan como signos, manchas que rozan el pensamiento. Cada una mantiene su propia temperatura, su pulso. Efe escribe desde el hueco que la imagen deja abierto, tensando y, en ocasiones, desviando su sentido.

En Vogais, las aves aparecen como signos suspendidos sobre ramas tensas. La imagen habla en su propio idioma. El poema no la traduce: la reorganiza. “Aves são como vogais / percorrem os ramos das palavras.” Entonces comprendemos que el pájaro se aproxima al lenguaje, que la rama se despliega como frase, que el mundo parece escribirse sin nosotros.

En Abrigo, una única oliveira se recorta en un paisaje desnudo. La imagen concentra un desamparo nítido. El poema no lo explica: lo orienta, lo condensa. “Era a casa da Paz, abrigo do mundo.”

En Despertar, un pájaro azul sostiene el aire del amanecer. La imagen lo muestra en vigilia. El poema no añade una acción exterior, pero activa esa mirada: “O pássaro azul espia o dia / desperta a casa.” Lo que era tensión visual se vuelve tiempo.

Y en el centro del libro, una frase corta el conjunto: “Para ser árvore / árvore tem de voar.” Las ilustraciones ya habían insinuado esa deriva —raíces que se abren, ramas que buscan—, pero es el lenguaje el que la formula y la fija.

Árvores são casas de pássaros se configura como un campo donde imagen y palabra se rozan sin coincidir del todo. Las imágenes abren múltiples direcciones —descomposición, memoria, herida, expansión— y el poema entra en ese campo: elige, orienta, se aproxima.

El lector descubre —casi sin advertirlo— que la poesía comienza en el instante en que una imagen exige ser habitada. No siempre se deja fijar, pero tampoco se deja ignorar.

Entre una y otra, un movimiento sostenido.

La imagen que piensa, la palabra que respira.


Deborah Nofret
 
 
 
Árvores são casas de pássaros
 
A imagem que pensa, a palavra que respira
 
Árvores são casas de pássaros altera a hierarquia habitual entre ilustração e poesia. Aqui a imagem não acompanha o poema: antecede-o, provoca-o, o obriga-o a existir de outro modo. José Efe não escreve "sobre" os desenhos; escreve depois deles. A sua poesia nasce de uma escuta visual, de uma atenção precisa, quase respiratória, na qual o traço já fixou uma emoção e o poema entra para trabalhar nela, não para substituí-la.

As ilustrações - realizadas por diferentes artistas - não funcionam como ornamento nem como relato paralelo. Sustentam-se como formas autónomas: árvores tensas, ramos que vibram, pássaros que agem como sinais, manchas que roçam o pensamento. Cada uma mantém sua própria temperatura, seu pulso. Efe escreve do buraco que a imagem deixa aberto, tensando e, às vezes, desviando o seu sentido.

Em Vogais, os pássaros aparecem como sinais suspensos sobre galhos tensos. A imagem fala seu próprio idioma. O poema não a traduz: reorganiza-a. "Aves são como vogais / percorrem os ramos das palavras." Então compreendemos que o pássaro se aproxima da linguagem, que o ramo se desdobra como frase, que o mundo parece escrever-se sem nós.

Em Abrigo, uma única oliveira é recortada numa paisagem nua. A imagem concentra um desamparo nítido. O poema não explica: orienta, condensa. "Era a casa da Paz, abrigo do mundo."
Em Despertar, um pássaro azul sustém o ar do amanhecer. A imagem mostra-o em vigília. O poema não acrescenta uma ação exterior, mas ativa esse olhar: "O pássaro azul espia o dia / desperta para casa." O que era tensão visual torna-se tempo.

E, no centro do livro, uma frase corta o conjunto: "Para ser árvore / árvore tem de voar." As ilustrações já tinham insinuado esse desvio - raízes que se abrem, ramos que procuram -, mas é a linguagem que a formula e fixa.

Árvores são casas de pássaros configura-se como um campo onde imagem e palavra se tocam sem coincidir totalmente. As imagens abrem múltiplas direções - decomposição, memória, ferida, expansão - e o poema entra nesse campo: escolhe, orienta, aproxima-se.

O leitor descobre - quase sem se dar conta - que a poesia começa no instante em que uma imagem exige ser habitada. Nem sempre se deixa fixar, mas também não se deixa ignorar.
 
Entre uma e outra, um movimento sustentado.
 
A imagem que pensa, a palavra que respira.
 

02 maio, 2026

en mis oídos de medianoche / nos meus ouvidos de meia-noite

 
Colmillos citadinos
traccionan cuando duermo
y los gritos de motores se abren paso
en mis oídos de medianoche
es hondo el dolor de las alarmas
a las siete a las doce a las seis
la multiplicidad de catástrofes que
retumban en los altoparlantes
nos dicen que una nueva avenida
nacerá cortando el bosque que protege
quiero decirte que cuando estoy en el séptimo piso
yo también extraño los pistilos
y sus formas de narrar la vida
la ternura del musgo
y el lodo como primer hogar de infancia
aquí solo la grasa y el metal
tiemblan bajo mi peso cuando
no encuentro el sentido en las filas
que hago para sacar dinero
y firmar un papel que dice esta persona
es ciudadana
de estas calles entonces salgo a caminar
y encuentro dos loritos de máscara roja besándose
sobre un semáforo en escobedo y aguirre
un nido de garzas suspendido
en las manos de un árbol
único
niños corriendo junto a las iguanas
vuelvo a descubrir las texturas nobles
que nos sostienen
me siento al borde del ventanal
en el séptimo piso imagino a la ría guayas
arrastrar una danza de taruyas
y espero la inundación.
 
 
Micaela Ron
 
 
Colmilhos citadinos
tracionam quando durmo
e os gritos dos motores abrem caminho
nos meus ouvidos de meia-noite
é funda a dor dos alarmes
às sete às doze às seis
a multiplicidade de catástrofes que
retumbam nos altifalantes
dizem-nos que uma nova avenida
nascerá cortando a floresta que protege
quero dizer-te que quando estou no sétimo andar
também sinto falta dos pistilos
e das suas formas de redigir a vida
a ternura do musgo
e a lama como primeira casa de infância
aqui só a gordura e o metal
tremem sob o meu peso quando
não encontro o sentido nas filas
que faço para conseguir dinheiro
e assinar um papel que diz esta pessoa
é cidadã
destas ruas saio então para caminhar
e encontro dois loritos de máscara vermelha a beijar-se
sobre um semáforo em escobedo e aguirre
um ninho de garças suspenso
nas mãos de uma árvore
única
crianças correndo ao lado das iguanas
volto a descobrir as texturas nobres
que nos sustentam
sento-me na borda da janela
no sétimo andar imagino a ria guayas
arrastando uma dança de jacintos-de-água
e espero a inundação.
 

27 abril, 2026

mi cuerpo es una iglesia caótica / o meu corpo é uma igreja caótica


mi cuerpo es una iglesia caótica
llena de culpa y vino
llevo en los hombros
la belleza de la gente que se rinde
que se deja caer de rodillas
ante lo terrible de la vida doméstica
habito la política de la nostalgia
hablo su argot con elegancia
rezo el rosal con mis dedos de espina
un ave maría por los chacales hambrientos
un dios te salve por la fibra de la tristeza
un gloria por lo que llega demasiado tarde
rezo por las cosas que me dan miedo
me invento algunos santos
para no sentirme sola.
 
 
Luciana Maxit
 
 
o meu corpo é uma igreja caótica
cheia de culpa e vinho
levo nos ombros
a beleza das pessoas que desistem
que se deixam cair de joelhos
diante do terrível da vida doméstica
habito a política da nostalgia
falo o seu jargão com elegância
rezo a roseira com os meus dedos espinhosos
uma avé maria pelos chacais famintos
um deus te salve pela fibra da tristeza
um hossana pelo que chega tarde demais
rezo pelas coisas que me assustam
inventei alguns santos
para não me sentir sozinha.
 
 

25 abril, 2026

Wear this gaze / Veste este olhar


Drain the bottle to drink her scent
named in a play of florals
Where different bodies dance in distance
in rose glass haze
Take the picture of we as mirror
when us slips the veil between essence
where mist learns your blood to linger
Wear this gaze               this mirage
It will
become you
 
 
Evelyn Araluen
 
 
Exaure a garrafa para beber o seu aroma
nomeado em arranjo floral
Onde corpos diferentes dançam na distância
em bruma de vidro rosa
Faz a fotografia de nós como espelho
quando deslizamos o lenço entre o perfume
onde a névoa aprende o teu sangue para permanecer
Veste este olhar             esta miragem
Ela vai
tornar-se em ti.


23 abril, 2026

con ojos saltones / com olhos esbugalhados

 
He dejado la cáscara del langostino en el borde del plato.
El desnudo colorado me mira con ojos saltones
es una muerte que parece pequeña, imprevista,
tal vez deliciosa a la vez que enmascarada,
que trago sin opción,
y cae en las rodillas
de su servilleta negra
o tumba.
 
 
Andrea Bernal
 

Deixei a casca do lagostim na borda do prato.
O ruivo nu olha-me com olhos esbugalhados
é uma morte que parece pequena, imprevista,
talvez deliciosa ao mesmo tempo que mascarada,
que tomo sem opção,
e cai nos joelhos
do seu guardanapo preto
ou túmulo.