06 agosto, 2026

não sonhar, ser sonhado


 No es que me haya propuesto hacer la metafísica de los sueños, ni de la realidad en tanto que soñada, sino que al ser el soñar la manifestación primaria de la vida humana, y los sueños una especie de prehistoria de la vigilia, muestran la contextura metafísica de la vida humana allí donde ninguna teoría o creencia puede alcanzar, en una forma rudimentaria y aun monstruosa, en privación y en exceso, en la impotencia del sujeto y de su correspondiente conciencia, casi como antes de haber nacido.
Pues el sujeto está en sueños privado de lo que el nacimiento da ante todo, aún antes que conciencia: tiempo, fluir temporal.
En sueños aparece la vida del hombre en la privación del tiempo, como una etapa intermedia entre el no ser el no haber nacido – y la vida en la conciencia, en el fluir temporal. En esta situación intermedia no se tiene tiempo todavía. Todavía, porque el sujeto que la padece, solo moviéndose en el tiempo alcanza su realidad, solo entonces se apropia de la realidad que le circunda en la forma típicamente humana dada por el disponer de sí mismo. Bajo el sueño, bajo el tiempo, el hombre no dispone de sí. Por eso padece su propia realidad.
No puede decirse que el que sueña esté privado de la realidad, libre o fuera de ella absolutamente, sino que la padece, que está bajo ella; que no puede ni contenerla, ni ordenarla, que está privado – lo que le permite tratar con ello adecuadamente, adecuadamente a sí mismo, a su propia condición–, desposeído de sí, enajenado en la realidad que le invade. Enajenado por carecer de tiempo, en sueños. Enajenado en la vigilancia por haber de andar en el tiempo, mas libre y consciente. Mientras que en sueños, perdido en la realidad, aun en la suya, puede dejarla aparecer sin interferencia ni sombra por momentos, solo por momentos.
 
 
María Zambrano
 
 
Não é que eu me tenha proposto fazer a metafísica dos sonhos, nem da realidade enquanto sonho, mas sendo o sonhar a manifestação primária da vida humana, e os sonhos uma espécie de pré-história da vigília, mostram a estrutura metafísica da vida humana ali onde nenhuma teoria ou crença pode alcançar, de uma forma rudimentar e até monstruosa, em privação e em excesso, na impotência do sujeito e da sua correspondente consciência, quase como antes de ter nascido.
Pois o sujeito está nos sonhos privado do que o nascimento dá antes de tudo, ainda antes da consciência: tempo, fluir temporal.
Nos sonhos aparece a vida do homem na privação do tempo, como uma etapa intermediária entre o não ser - o não ter nascido - e a vida na consciência, no fluxo temporal. Nesta situação intermédia ainda não há tempo. Ainda, porque o sujeito que a padece, só movendo-se no tempo, alcança a sua realidade, só então se apropria da realidade que o circunda na forma tipicamente humana dada pelo dispor de si mesmo. Sob o sono, sob o tempo, o homem não dispõe de si. Por isso sofre sua própria realidade.
Não se pode dizer que aquele que sonha esteja privado da realidade, livre ou fora dela absolutamente, mas sim que sofre dela, que está sob ela; que não pode nem contê-la, nem ordená-la, que está privado - o que lhe permite tratar com isso adequadamente, adequadamente a si mesmo, à sua própria condição. Despojado de si mesmo, alienado da realidade que o invade. Alienado por falta de tempo, em sonhos. Alienado na vigilância por ter que andar no tempo, mais livre e consciente. Enquanto nos sonhos, perdido na realidade, mesmo na sua, pode deixá-la aparecer sem interferência nem sombra por momentos, apenas por momentos.
 

01 agosto, 2026

Prophecy / Profecia

 



OVERTURE
 
What in a Prediction?
 
Forecasts could hardly be more pervasive or consequential in our lives, and yet they are grossly misunderstood and consistently misinterpreted—sometimes innocently, often negligently, and other times maliciously. What exacdly is a prediction?
THE WISE VIEW OF PREDICTION
To make a prediction is to say or estimate that something will happen in the future. I use “prediction,” “Forecast,” and “prophecy” as rough symonyms,
The most common misconception about forecasting is what I call the naive view of prediction. The naive view portrays predictions as quests for truth or a kind of knowledge. When tech companies sell predictive algorichms to governments and businesses, they sell the story that predictions will help them understand their citizens or clients, that they will allow them to anticipate problems. What the naive view misses are five crucial characteristics of predictions.
 
First, predictions are guesses.
 
Predictions are not facts. Facts belong to the present and the past. An assertion about the future can be many things an estimate, a desire, a warning — but never a fact. What makes the future the future is thas its not yet here, it hasnt yet happened, What hasnt come to pass doesnt exist, and there are no facts about what doesnt exist.
You might think that picture must be wrong because it seems as if you can lie about the future, and if you can lie, then you must be able to tell the truth about it as well. But that's an illusion. You can lie about your present beliefs about the future, but not about the future itself; you can be wrong about the future, but if you were being sincere, it wasn't a lie.
That doesn't mean that all predictions are unrelated to facts. Some forecasts are justified. When 60 percent of the times that a weather app says that there is a 60 percent chance of rain, it rains, then we have good reason to trust it. But most predictions out there are not like weather forecasts.
Our justice system is supposed to be based on what people deserve. You don't get punished for anything you haven't done — in theory. Our educational system is supposed to be based on merit. You don't get grades for exams you haven't sat — in theory. Our job market is supposed to be fair. You dont get penalized for blunders you havent made — in theory. What people have or haven't done are facts. When we use prediction to make decisions about human beings, we treat them according to guesses, not facts. We punish not for what someone did but for what we think someone will do. And we don't even give people the chance to dispute these predictions, because they are unverifiable and unfalsifiable: Since they are about the future, predictions cannot be challenged for being false, creating yet another injustice and allowing prophets to evade accountability.


Carissa Véliz
 

ABERTURA
 
O que está numa predição?
 
As previsões dificilmente poderiam ser mais pervasivas ou consequenciais nas nossas vidas, e mesmo assim estão amplamente mal compreendidas e consistentemente mal interpretadas - às vezes de forma inocente, muitas vezes negligente, e outras vezes maliciosamente. O que exatamente é uma predição?
 
A VISÃO SÁBIA DA PREDIÇÃO
 
Fazer uma predição, é dizer ou calcular que alguma coisa vai acontecer no futuro. Eu uso "predição", "previsão" e "profecia" como sinónimos aproximados,
O equívoco mais recorrente sobre a previsão é o que eu chamo de visão ingénua da predição. A visão ingénua retrata as previsões como demandas da verdade ou algum tipo de conhecimento. Quando as empresas de tecnologia vendem algoritmos preditivos aos governos e às empresas, estão a vender a história de que as predições os vão ajudar a entender seus cidadãos ou clientes, que lhes vão permitir antecipar problemas. O que a visão ingénua ignora são cinco características cruciais das previsões.
 
Primeiro, as predições são palpites.
Predições não são factos. Factos pertencem ao presente e ao passado. Uma afirmação sobre o futuro pode ser muitas coisas - uma estimativa, um desejo, um aviso - mas nunca um facto. O que faz com que o futuro seja futuro é  ainda não estar aqui, ainda não ter acontecido. O que não aconteceu não existe, e não há factos sobre o que não existe.
Podemos pensar que essa imagem deve estar errada porque parece que se podemos mentir sobre o futuro, e se podemos mentir, então devemos ser capazes de dizer a verdade sobre isso também. Mas isso é uma ilusão. Podemos mentir sobre as nossas crenças atuais sobre o futuro, mas não sobre o futuro em si; podemos estar errados sobre o futuro, mas se estivéssemos a ser sinceros, não seria uma mentira.
Isso não significa que todas as predições não estejam relacionadas com os factos. Algumas previsões são justificadas. Quando 60% das vezes que um aplicativo meteorológico diz que há uma chance de 60% de chuva, chove, então temos bons motivos para confiar nele. Mas a maioria das predições que andam por aí não são como as previsões do tempo.
É suposto que o nosso sistema de justiça esteja baseado no que as pessoas merecem.Não somos punidos por nada que não tenhamos feito - em teoria. É suposto que o nosso sistema educacional esteja baseado no mérito. Não nos são atribuídas notas para exames que não fizemos - em teoria. É suposto que o nosso mercado de trabalho seja justo. Não somos penalizados por erros que não cometemos - em teoria. O que as pessoas fizeram ou não fizeram são factos. Quando usamos a predição para tomar decisões sobre seres humanos, tratamo-los de acordo com suposições, não factos. Estamos a punir não pelo que alguém fez, mas pelo que pensamos que alguém fará. E nem sequer damos às pessoas a oportunidade de contestar estas predições, porque são não-verificáveis e não- falsificáveis: dado que dizem respeito ao futuro, as predições não podem ser contestadas por serem falsas, criando mais uma injustiça e permitindo que os profetas escapem à responsabilização.

30 julho, 2026

coro



Bailamos
como nuestros muertos.
Bailamos
encima de sus huesos.
 
Ojo de carne
penumbra carmesí
que mancha el cielo.
 
Nuestro brazo te alcanza
hasta salirse de mí.
Rasga el tuétano.
 
Figuras de ruinas
que retornan
sobre tu sombra.
 
Hace tiempo
el olvido
llevó sus rostros.
 
Se danza
a la espera
de no tener cuerpo.
 
 
Deira Salcie Almonte
 
 
Dançamos
como os nossos mortos.
Dançamos
em cima dos seus ossos.
 
Olho de carne
penumbra carmesim
que mancha o céu.
 
O nosso braço alcança-te
até sair de mim.
Rasga o tutano.
 
Figuras de ruínas
que retornam
sobre a tua sombra.
 
há muito tempo
o esquecimento
levou os seus rostos.
 
Dança-se
à espera
de não ter corpo.
 

26 julho, 2026

me compré un sostén nuevo / comprei um sutiã novo



IV. Me compré un sostén nuevo
 
Me compré un sostén nuevo
para dormir contigo
para que cuando me veas me digas:
esto me moja como mierda
 
pero cuando lo viste
no dijiste nada
me abrazaste como a un preso político
que acaban de darle asilo en el extranjero
 
por un momento
confundí tu abrazo con libertad
 
 
María Alejandra López
 
 
IV. Comprei um sutiã novo
 
Comprei um sutiã novo
para dormir contigo
para que quando me vires me digas :
isso excita-me para caralho
 
mas quando o viste
não disseste nada
abraçaste-me como um prisioneiro político
a quem acabam de dar asilo no estrangeiro
 
por um momento
confundi o teu abraço com liberdade