ABERTURA
O mito forja-se em comum, a quente,
com o ferro em brasa do ressentimento.
E o neurótico já não guarda a dor para si.
Ergue um altar à própria ferida,
e convoca uma nação de reflexos
que devolvem, deformado,
o vazio a que chama eu.
Entretanto, Lisboa respira por dentro das fachadas de azulejo;
os eléctricos passam-lhe por dentro das veias;
o Tejo é um olho que não dorme.
E o mito ganha fôlego.
A palavra-Pai é cuspida e bendita ao mesmo tempo.
PROCLAMAÇÃO
com o ferro em brasa do ressentimento.
E o neurótico já não guarda a dor para si.
Ergue um altar à própria ferida,
e convoca uma nação de reflexos
que devolvem, deformado,
o vazio a que chama eu.
Entretanto, Lisboa respira por dentro das fachadas de azulejo;
os eléctricos passam-lhe por dentro das veias;
o Tejo é um olho que não dorme.
E o mito ganha fôlego.
A palavra-Pai é cuspida e bendita ao mesmo tempo.
PROCLAMAÇÃO
ELE encarna a palavra-Pai.
UM Pai da ordem.
UM Pai das fronteiras.
UM Pai da lei proclamada com a boca cariada.
Mas o trono é um tabuleiro de cartas
soprado pelo vento do Outro.
Cartas molhadas. Cartas queimadas.
Cartas com nomes de santos e de bancos.
Vasculha os armazéns da história,
recolhe significantes gastos,
palavras-amuleto polidas até perderem o corpo,
e brande-as contra o mundo.
Esfrega-as no peito
até brilharem por fora
e soarem ocas por dentro.
Invoca um Pai morto.
E sabe.
Por isso a sua fala é um luto em circuito fechado.
É uma repetição ritual, marcha de autómata;
o comício como missa invertida:
re-ENCONTRAR (sempre)
a falta que o funda.
É contador de DÉBITOS IMAGINÁRIOS.
Instala facturas sobre os corpos.
Transfere a culpa para vozes estranhas.
FACTURA O FUTURO A QUEM JÁ VEIO.
“DEVEM-NOS” — proclama —
e empilha factos que só existem enquanto medo.
A dívida é inapagável
porque o que lhe falta
é precisamente o reconhecimento simbólico
que jamais concederá.
Então inventa inimigos.
RATOS metafóricos — / roem / as / paredes / do / consenso.
RATOS com bilhete de identidade.
Ratos com oração.
Ratos com facturas.
Ele oferece-se como cobrador supremo,
gestor da angústia colectiva,
director clínico de uma nação revoltada.
O MITO é uma cápsula de gozo envenenado.
PROMETE INTEIREZA.
Mas o que entrega
é a cavidade.
A fractura.
O resto.
Precisa do traidor,
do bode-expiatório,
da ameaça que legitima.
Sem o fantasma do Outro malévolo
a construção implode, como igreja sem altar,
como praça sem mágoa.
A sua palavra não procura o diálogo.
PROCURA A EXCITAÇÃO DO ÓDIO.
Procura um afecto que, por um instante,
faz acreditar na plenitude.
Fala sempre para um objecto perdido.
— UMA PÁTRIA-FANTASMA. —
Um passado fabricado
que só existe
em CONTRASTE com o pânico presente.
O mito pessoal → EPIDEMIA.
O neurótico → XAMÃ.
RECEITA o seu sintoma como remédio colectivo.
Mas o inconsciente NÃO se pluraliza.
REPETE-SE.
O conjunto que se agarra ao mito alheio
para não encarar o próprio buraco
limita-se a ECOAR
os mesmos rituais de desprezo.
NO FIM: o espectáculo.
Um homem que, para não ver
que o seu desejo é desejo-do-Pai,
arrastou um país inteiro
para representar, com ele,
a mesma farsa.
A CORTINA cairá.
as cordas do palco serão roídas
pelos ratos inventados.
E o VAZIO — intacto, soberano —
escolherá o próximo actor.
•
•
•
Fátima Vale
In : O Rito Vazio Do Nome Do Pai (livro em construção)
•
"No meio do inferno, há alguém, ou algo, que respira o cosmos como resistência mínima: a prova de que nem tudo foi capturado. Essa respiração não salva o mundo, mas impede o fecho total do sentido."
UM Pai da ordem.
UM Pai das fronteiras.
UM Pai da lei proclamada com a boca cariada.
Mas o trono é um tabuleiro de cartas
soprado pelo vento do Outro.
Cartas molhadas. Cartas queimadas.
Cartas com nomes de santos e de bancos.
Vasculha os armazéns da história,
recolhe significantes gastos,
palavras-amuleto polidas até perderem o corpo,
e brande-as contra o mundo.
Esfrega-as no peito
até brilharem por fora
e soarem ocas por dentro.
Invoca um Pai morto.
E sabe.
Por isso a sua fala é um luto em circuito fechado.
É uma repetição ritual, marcha de autómata;
o comício como missa invertida:
re-ENCONTRAR (sempre)
a falta que o funda.
É contador de DÉBITOS IMAGINÁRIOS.
Instala facturas sobre os corpos.
Transfere a culpa para vozes estranhas.
FACTURA O FUTURO A QUEM JÁ VEIO.
“DEVEM-NOS” — proclama —
e empilha factos que só existem enquanto medo.
A dívida é inapagável
porque o que lhe falta
é precisamente o reconhecimento simbólico
que jamais concederá.
Então inventa inimigos.
RATOS metafóricos — / roem / as / paredes / do / consenso.
RATOS com bilhete de identidade.
Ratos com oração.
Ratos com facturas.
Ele oferece-se como cobrador supremo,
gestor da angústia colectiva,
director clínico de uma nação revoltada.
O MITO é uma cápsula de gozo envenenado.
PROMETE INTEIREZA.
Mas o que entrega
é a cavidade.
A fractura.
O resto.
Precisa do traidor,
do bode-expiatório,
da ameaça que legitima.
Sem o fantasma do Outro malévolo
a construção implode, como igreja sem altar,
como praça sem mágoa.
A sua palavra não procura o diálogo.
PROCURA A EXCITAÇÃO DO ÓDIO.
Procura um afecto que, por um instante,
faz acreditar na plenitude.
Fala sempre para um objecto perdido.
— UMA PÁTRIA-FANTASMA. —
Um passado fabricado
que só existe
em CONTRASTE com o pânico presente.
O mito pessoal → EPIDEMIA.
O neurótico → XAMÃ.
RECEITA o seu sintoma como remédio colectivo.
Mas o inconsciente NÃO se pluraliza.
REPETE-SE.
O conjunto que se agarra ao mito alheio
para não encarar o próprio buraco
limita-se a ECOAR
os mesmos rituais de desprezo.
NO FIM: o espectáculo.
Um homem que, para não ver
que o seu desejo é desejo-do-Pai,
arrastou um país inteiro
para representar, com ele,
a mesma farsa.
A CORTINA cairá.
as cordas do palco serão roídas
pelos ratos inventados.
E o VAZIO — intacto, soberano —
escolherá o próximo actor.
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Fátima Vale
In : O Rito Vazio Do Nome Do Pai (livro em construção)
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"No meio do inferno, há alguém, ou algo, que respira o cosmos como resistência mínima: a prova de que nem tudo foi capturado. Essa respiração não salva o mundo, mas impede o fecho total do sentido."


