24 março, 2026

ojos plomizos eran / olhos plúmbeos eram

 
Caían esquirlas del tejado
y aullaban los perros.
El terremoto cuarteó el bahareque de las paredes
donde tantos tesoros
escondimos para ti.
La abuela impidió que tu pequeño cuerpo
fuera lanzado
a los canales del hospital.
Te dispuso en tu cajita blanca
y alimentó el misterio de tus ojos:
 
ojos plomizos eran,
como la crecentada cuando erosiona las montañas,
redondos, humedecidos por la garúa de agosto
cuando hay tanto viento,
apagados en la ceniza de promesas incumplidas.
 
Una lámina de papel de arroz apareció
entre mis ojos y los tuyos
y mi cabeza de cinco años se embarcó
como polizón en tu caja pequeña.
 
La abuela
fundadora de un contracosmos orgánico
preparó el puñado de cal para tu fosa:
ahí te dejó,
estrella con la clavícula rota por los fórceps.
 
 
Bernardita Maldonado
 
 
Caíam derrocas do telhado
uivavam os cães .
O terramoto rachou o bajareque das paredes
onde tantos tesouros
escondemos para ti.
A avó impediu que o teu pequeno corpo
fosse atirado
aos canais do hospital.
Dispõs-te na tua caixinha branca
alimentou o mistério dos teus olhos:
 
olhos plúmbeos eram,
como a enxurrada quando erode as montanhas,
redondos, humedecidos pela morrinha de agosto
quando há tanto vento,
apagados nas cinzas de promessas não cumpridas.
 
Uma folha de papel de arroz apareceu
entre os meus olhos e os teus
a minha cabeça de cinco anos embarcou
como uma clandestina na tua pequena caixa.
 
A avó
fundadora de um contracosmos orgânico
preparou o punhado de cal para a tua vala :
aí te deixou,
estrela com a clavícula partida pelos fórceps.


20 março, 2026

A Moral dos Assassinos

Lembras-te de ser trabalhador?

Havia uma verdade simples na palavra.
O corpo entrava no dia
com o seu peso,
com a sua fadiga,
com a sua teimosia contra a matéria.

Trabalhar era tocar o mundo.
E o mundo, ainda que duro,
respondia.

Os sindicatos ainda usam a palavra.
Chamam-te assim, nos panfletos, nas sedes, nas manifestações.
Mas a palavra já não te alcança.
Soa a outro tempo,
a uma dureza que já não queres para ti.
Parece que te rebaixa,
que te fixa num lugar
de onde julgas ter saído.

Substituiram-na por colaborador.
A palavra entrou devagar,
quase com gentileza.
Parecia aproximar.
Parecia suavizar.
Parecia tirar-te do fundo da fila,
e dar-te um lugar à mesa.

E aceitaste
porque era mais leve.
Porque parecia escolha.
Porque ninguém gosta de ser lembrado
daquilo de que precisa de se defender.

Já não se diz esforço.
Diz-se integração.
Já não se diz conflito.
Diz-se pertença.
Já não se diz dependência.
Diz-se participação.

E a língua, pouco a pouco,
aprendeu a não ferir.
E tu, com ela.

Foi assim, sem discussões,
que se deu o suicídio simbólico
antes da morte real.

Chamam estratégia
ao que é massacre.
Chamam precisão
ao cuidado de medir a queda.
Chamam contenção
à escolha do lugar
onde a morte deve cair
sem manchar a imagem de quem a ordena.

Vede:
a cena abre-se sem alarme.
Uma mesa.
Ecrãs.
Mapas.
Uma cidade reduzida a escombros.
Uma criança reduzida
a margem tolerável.
Milhares de crianças reduzidas a danos colaterais.

Tudo parece correcto.
Tudo parece sóbrio.
Tudo parece normal.

Onde vai o opressor buscar a razão?
Na frase certa.
Na voz sem tremor.
No relatório.
Na televisão.
Na delicadeza com que se nomeia a ruína
para que ela pareça necessária.

Como se explicam os abismos em horário nobre?
Com um tom estável.
Com palavras lavadas.
Vestindo o idioma do crime
com a roupa da ordem.

Quem são os carrascos?
Os que apertam o botão.
Os que assinam.
Os que corrigem a linguagem.
Os que tornam a violência aceitável em horário nobre.

E nós,
os que um dia aceitaram uma palavra mais leve,
os que ouviram sem interromper,
os que deixaram a língua subir
até perder o chão,
também entramos nessa escada.

Mas o sangue derramado não é discreto.
A ruína não se torna justa
por ser falada com compostura.
E o crime não deixa de ser crime
porque aprendemos a aceitá-lo.

Há sempre, no fundo de tudo isto,
uma criança que não entra na linguagem,
uma mãe que não encontra nome para o que perdeu,
milhares de corpos que ficam do lado de fora
da frase contorcionista.

É por isso que a mentira falha,
porque a dor não é elegante,
não cabe no ecrã,
não se deixa reduzir à medida
em que a razão dos monstros
gostaria de a encerrar.

E nós,
nós que aceitamos a palavra mais leve,
nós que ouvimos sem interromper,
nós que deixámos a língua subir
até perder o chão,
somos chamados a regressar
ao peso exacto das coisas.

A chamar sangue ao sangue.
A chamar morte à morte.
A chamar crime ao crime.
E a recusar, com toda a nossa humanidade,
a gramática que o torna aceitável.

§

Fátima Vale 

15 março, 2026

el perro tuerto / o cão zarolho

 
Una sábana cuelga del cielo y envuelve el aire. Una mucama sin brazos nos rodea y la sacude. Es el momento en que los truenos invaden el mundo. El gran pintor traza pinceladas y crea la naturaleza. Ciertas nubes se tragan el viento, quedando embarazadas y pariendo tormentas. Inspiramos las conversaciones del pasado en las que nunca estamos de acuerdo. La luna se pasea galante, seduciendo la brisa de los enamorados. Un repertorio de memorias. Los miedos de los insomnes desean ordenar las penumbras rotas. El aire es la presencia más lejana de nuestras vidas.
*
 
La puerta saboreaba su crujir al cerrarse. La ventana se quejaba de que no podía dormir. Mientras una se abría, otra se cerraba. Los vidrios, más perezosos, reflejaban la luz del día. El momento máximo de la enemistad entre la puerta y la ventana fue un comentario de la puerta. Había visto desnuda a la claraboya mirando el cielo celeste. La ventana enfurecida salió con vehemencia a defender a su hermana. Y fue así que oscureció con cortinas el pasillo a la puerta y convenció a su prima bisagra de que no se abriese. La puerta enmudeció sus crujidos y se mantuvo cerrada.

*
 
Golpeaba la puerta con premura. De las bisagras brotaban lágrimas, por el dolor que producían las sanguijuelas que actuaban como clavos. El golpe resonaba como un presagio lúgubre, anunciando que algo aterrador estaba a punto de suceder. De las rendijas florecía un olor hediondo. Se abrió la puerta. Una mesa tendida a lo largo de la habitación nos ofrecía el aroma del té de jazmín. La imagen de una luna de queso añejo de vaca al extremo de la mesa nos tentaba. Un reloj, sumergido en un mar de leche de coco, anunciaba el crepúsculo.
 
 
Hebert Abimorad
 
 
Um lençol pende do céu e envolve o ar. Uma empregada sem braços sacode-o à nossa volta. É o momento em que os trovões invadem o mundo. O grande pintor traça pinceladas e cria a natureza. Certas nuvens engolem o vento, engravidando e provocando tempestades. Inspiramos as conversas do passado em que nunca concordamos. A lua passeia-se galante, seduzindo a brisa dos apaixonados. Um reportório de memórias. Os medos das pessoas sem sono desejam ordenar as penumbras fendidas. O ar é a presença mais distante de nossas vidas.
 
*
 
A porta saboreava o seu ranger ao fechar-se. A janela queixava-se de não conseguir dormir. Enquanto uma se abria, a outra fechava-se. Os vidros, mais preguiçosos, refletiam a luz do dia. O momento máximo da inimizade entre a porta e a janela foi um comentário sobre a porta. Tinha visto a claraboia nua olhando o céu celeste. A janela enfurecida saiu com veemência para defender a sua irmã. E foi assim que escureceu com cortinas o corredor à porta e convenceu a sua prima dobradiça a não se abrir. A porta emudeceu os seus rangeres e manteve-se fechada.
 
*
 
Batia a porta com pressa. Das dobradiças brotavam lágrimas, pela dor que produziam os parasitas que agiam como pregos. O bater ressoava como um presságio lúgubre, anunciando que algo assustador estava prestes a acontecer. Das fendas florescia um cheiro fedorento. A porta abriu-se. Uma mesa disposta ao longo da sala oferecia o aroma do chá de jasmim. A imagem de uma lua de queijo de vaca envelhecida na extremidade da mesa era tentadora. Um relógio, submerso num mar de leite de coco, anunciava o crepúsculo.