19 setembro, 2026

le premier arrachement / a primeira avulsão

 
les enfants demandent une consolation
pour le premier arrachement
du lait chaud ou ta peau
mousse mémoire de leurs joies
tu leur offres une attention – t’alignes
vers ton devenir animal
dans le noir tu t’enfonces
en délaissant la rancœur
pour les caresses
on dit que les bêtes absorbent
les maladies des hôtes
tu ne feras pas intervenir une croyance
de peur qu’elle ne devienne malédiction

 
Vanessa Courville
 
 
as crianças pedem  um consolo
para a primeira avulsão
do leite quente ou da tua pele
espuma memória das suas alegrias
a elas oferendas atenção  - alinhas-te
em direção ao teu futuro animal
é no escuro que te arrombas
abandonando o ressentimento
em favor dos afagos
dizem que os animais absorvem
as doenças dos hospedeiros
não deixarás intervir uma crença
com medo que se torne uma maldição
 

18 setembro, 2026

L’algorithmisation du langage ne rompt / A algorítmica da linguagem não rompe


Le langage est le propre de l’homme, c’est vrai. Mais comme les mathématiques ou le calcul. Et nombre de philosophes majeurs, à commencer par les Grecs, ont considéré qu’il pouvait exister un langage logique détaché des rapports immédiats aux humains. Quand Aristote a le projet d’établir les lois de la logique, il cherche les liens permettant d’assembler les propositions ou de construire les énoncés qui seraient indépendants des croyances, opinions ou désirs qu’on va trouver chez tel ou tel locuteur humain. Il est donc déjà à la recherche d’un fonctionnement autonome du langage. Même chose chez Descartes, quand il fonde la mathesis universalis, il rêve d’un langage mathématique universel, sans parler de la caractéristique universelle de Leibniz [ il rêvait lui aussi d’une langue de calcul universelle et a inventé une machine calculatoire théorique, le calculus ratiocinator ]. L’algorithmisation du langage ne rompt donc pas, me semble-t-il, avec la tradition rationaliste ; elle en constitue peut-être l’aboutissement paradoxal. Ce qu’il y a de neuf n’est pas dans l’idée d’un langage autonome mais dans le fait que cette autonomie devienne opératoire et conversationnelle.
 
Catherine Malabou
 
A linguagem é própria do homem, é verdade. Mas da mesma maneira que a matemática ou o cálculo. E muitos dos filósofos importantes, começando pelos gregos, consideraram que poderia existir uma linguagem lógica separada das relações imediatas com os seres humanos. Quando Aristóteles tem o projeto de estabelecer as leis da lógica, ele procura os laços que permitam reunir as proposições ou construir enunciados que sejam independentes das crenças, opiniões ou desejos que se vão encontrar em tal ou tal locutor humano. Já está, portanto, à procura de um funcionamento autónomo da linguagem. O mesmo acontece com Descartes, quando funda a mathesis universalis, sonha com uma linguagem matemática universal, para não falar da característica universal de Leibniz [ que também sonhava com uma linguagem de cálculo universal e inventou uma máquina computacional teórica, o calculus ratiocinator ]. A algoritmização da linguagem, portanto, não rompe, ao que me parece, com a tradição racionalista ; talvez constitua a sua conclusão paradoxal. O que há de novo não está na ideia de uma linguagem autónoma, mas no facto de essa autonomia se tornar operatória e conversacional.

11 setembro, 2026

Les espèces ordinaires ont froid / As espécies vulgares têm frio.

 
Nous nous ossifions comme un béluga. Une expérience de soleil privé. Ce qui réduit l’élan de l’oubli. Il nous revient de tout recommencer. Comme si la personne ne se marcottait pas, elle aussi. Comme si la personne ne s’arrangeait pas pour ignorer son temps fixe. Nous sommes libres d’utiliser les expériences et les pensées du passé. Comme si ces comportements n’étaient pas agréables. Appelle-moi.
 
Les roches striées laissent supposer une routine. Tu te tais, tu es outre-mer, c’est vrai, outre-désastre, outre-mammifère. Tu lis. Rien ne m’est encore arrivé sauf la fin. Le champ offre plusieurs cas sensibles, apparitions, circonstances anachroniques, phénomènes, moments animaux, phases de glace, vues panoramiques, insularité, décantation de l’exactitude. Même de la boue.
 
Les espèces ordinaires ont froid. Nous courons à travers les herbes dangereuses avec des queues radicales. Nous ne sommes pas toujours contre le grouillement de bêtes invisibles se blessant entre elles, nous les rappelons affectueusement, nous prenons en compte leurs désirs. C’est de l’inclusion. Nos sentiments ne sont pas un problème. Presque homogènes, presque maritimes, presque agricoles, presque épistolaires, presque temporels. Nous nous pratiquons.
 
 
Maude Pilon

 
Ossificamo-nos como uma beluga. Uma experiência privada ao sol . O que reduz o arroubo do esquecimento. Compete-nos recomeçar tudo. Como se a pessoa, ela também, não estivesse a marcotear-se. Como se a pessoa conseguisse ignorar o seu tempo fixo. Somos livres de usar experiências e pensamentos do passado. Como se esses comportamentos não fossem agradáveis. Telefona-me.
 
As rochas estriadas sugerem uma rotina. Calas-te, estás no externo, é verdade, no além-desastre, além mamífero. Lês. Ainda nada me aconteceu, exceto o fim. O campo oferece vários casos sensíveis, aparições, circunstâncias anacrónicas, fenómenos, momentos animais, fases de gelo, vistas panorâmicas, insularidade, decantação do exato. Até lama.
 
As espécies vulgares têm frio. Corremos através das ervas perigosas com rabos radicais. Nem sempre somos contra o tumulto de animais invisíveis ferindo-se entre si, lembramo-los afetuosamente, levamos em conta seus desejos. Isso é inclusão. Os nossos sentimentos não são um problema. Quase homogéneos, quase marítimos, quase agrícolas, quase epistolares, quase temporais. Nós praticamo-nos.