18 julho, 2026

j’ai connu le corps de ma mère / conheci o corpo da minha mãe


Je me souviens de ses genoux
De ses chevilles
De la forme de son pied au repos
 
De son dos
Cette courbe que j’ai massée
Sous laquelle tout la tuait
 
Sa douceur
Sa maigreur
 
 
Gladys Brégeon
 
 
Lembro os seus joelhos
Os seus tornozelos
A forma do seu pé em repouso
 
O seu dorso
Essa curva que massajei
Sob a qual tudo a matava
 
A sua doçura
A sua magreza 

11 julho, 2026

como colibris, batemos as asas sem parar só para nos mantermos no ar

 
Costumo usar metáforas vívidas. O colibri tem necessidade de estar sempre a bater as asas. Não lhe é permitido diminuir a vibração. Caso o faça entrará na queda direta para o chão. Assim, nós, exaustivamente ocupados pelo medo do fracasso, da queda.
Tal como o colibri, o nosso esgotamento profissional já não está alimentado pela esperança ou pela ambição, mas pelo medo de ficar para trás se diminuirmos o andamento.

O conceito de suspensão refere-se a uma condição de vida em que as pessoas sentem que têm de aproveitar todos os minutos e trabalhar arduamente, pois, se não se dedicarem ao máximo no presente, ficarão para trás. As pessoas trabalham com tanta intensidade que " suspendem " o significado do momento atual. A suspensão pode se manifestar-se no abandono de muitas necessidades humanas - hobbies, amizades, tempo, descanso - com o objetivo de acumular dinheiro para o futuro.
Esta condição acontece por dois motivos principais. Primeiro, há sérias implicações para a saúde mental e física. Uma vez, conheci um taxista de meia-idade em Guangdong que conduzia mais de dez horas por dia. Queixava-se de dores nas costas e dizia que era muito difícil. Instintivamente, disse-lhe : “ Olhe pela sua saúde ; deve reduzir o seu tempo de trabalho ”. Ele respondeu: “ Saúde? A saúde será uma preocupação para o futuro ”. A forma como ele disse isso — “a saúde é uma preocupação para o futuro” — é reveladora. Sem alternativas, adiou a necessidade de cuidar da saúde para maximizar as economias e garantir uma vida supostamente confortável no futuro.

O segundo motivo é estrutural. A suspensão fomenta uma condição em que as pessoas ignoram os problemas presentes. Muitos migrantes não ficaram muito contentes com as suas condições de trabalho, frequentemente exploradoras e repletas de conflitos. No entanto, em vez de confrontar esses problemas, eles saltavam de emprego em emprego, de fábrica em fábrica, na esperança de maximizar as suas economias, para se libertarem do ambiente de trabalho horrível e, eventualmente, alcançar uma situação económica e social melhor.

Essa condição de suspensão ajuda a explicar por que a sociedade pode parecer economicamente dinâmica e empreendedora, enquanto são raras as pessoas tomam a iniciativa de promover mudanças sociais na base da sociedade. A suspensão captura essa contradição : todos trabalham incansavelmente, aproveitando o momento, enquanto simultaneamente se afastam de problemas estruturais mais profundos.

Xiang Biao 

08 julho, 2026

No recuerdo el ladrido de los perros / Não lembro o ladrar dos cães



No recuerdo el ladrido de los perros,
ni la luz que parpadeaba en la ventana,
y aquel canto que oímos, ¿de qué boca saldría?
 
Tenía de muñeca una botella que mi madre vestía de gitana,
en la casa había niños,
rompían los cristales de la siesta con sus gritos de niños,
con sus piedras de piedra.
 
Había un almendro,
sus hojas tapizaban nuestra calle de un murmullo feliz.
 
Hubo días de sol y de aguacero,
sé que tuve dos hijas, pero nunca un jardín.
Merecí la dicha acaso por un tiempo
y mi regazo supo el peso de la vida, el roce de la prolongación.
 
¿Pero dónde fue aquello, sobre qué suelo edifiqué esa casa
que se me viene encima con sus muertos en ella?
 
Recuerdo un río, un puente muy estrecho. Mi padre iba delante,
yo siempre le seguía, detrás este silencio.
 
 
Lizette Espinosa
 
 
Não lembro o ladrar dos cães,
nem a luz que bulia na janela,
o tal canto que ouvimos, de que boca sairia?
 
A minha boneca era uma garrafa que a minha mãe vestia de cigana,
na casa havia crianças,
partiam os vidros da sesta com os seus gritos,
com as suas pedras de pedra.
 
Havia uma amendoeira,
as suas folhas atapetavam a nossa rua com um murmúrio feliz.
 
Houve dias de sol e de chuva,
sei que tive duas filhas, mas nunca um jardim.
Mereci a felicidade por algum tempo
e o meu regaço soube o peso da vida, o toque do prolongamento.
 
Mas onde foi aquilo, sobre que chão construí essa casa
que se volta contra mim com os seus mortos dentro?
 
Lembro um rio, uma ponte muito estreita. O meu pai ia à frente,
seguia-o sempre, por trás deste silêncio.