20 março, 2026

A Moral dos Assassinos

Lembras-te de ser trabalhador?

Havia uma verdade simples na palavra.
O corpo entrava no dia
com o seu peso,
com a sua fadiga,
com a sua teimosia contra a matéria.

Trabalhar era tocar o mundo.
E o mundo, ainda que duro,
respondia.

Os sindicatos ainda usam a palavra.
Chamam-te assim, nos panfletos, nas sedes, nas manifestações.
Mas a palavra já não te alcança.
Soa a outro tempo,
a uma dureza que já não queres para ti.
Parece que te rebaixa,
que te fixa num lugar
de onde julgas ter saído.

Substituiram-na por colaborador.
A palavra entrou devagar,
quase com gentileza.
Parecia aproximar.
Parecia suavizar.
Parecia tirar-te do fundo da fila,
e dar-te um lugar à mesa.

E aceitaste
porque era mais leve.
Porque parecia escolha.
Porque ninguém gosta de ser lembrado
daquilo de que precisa de se defender.

Já não se diz esforço.
Diz-se integração.
Já não se diz conflito.
Diz-se pertença.
Já não se diz dependência.
Diz-se participação.

E a língua, pouco a pouco,
aprendeu a não ferir.
E tu, com ela.

Foi assim, sem discussões,
que se deu o suicídio simbólico
antes da morte real.

Chamam estratégia
ao que é massacre.
Chamam precisão
ao cuidado de medir a queda.
Chamam contenção
à escolha do lugar
onde a morte deve cair
sem manchar a imagem de quem a ordena.

Vede:
a cena abre-se sem alarme.
Uma mesa.
Ecrãs.
Mapas.
Uma cidade reduzida a escombros.
Uma criança reduzida
a margem tolerável.
Milhares de crianças reduzidas a danos colaterais.

Tudo parece correcto.
Tudo parece sóbrio.
Tudo parece normal.

Onde vai o opressor buscar a razão?
Na frase certa.
Na voz sem tremor.
No relatório.
Na televisão.
Na delicadeza com que se nomeia a ruína
para que ela pareça necessária.

Como se explicam os abismos em horário nobre?
Com um tom estável.
Com palavras lavadas.
Vestindo o idioma do crime
com a roupa da ordem.

Quem são os carrascos?
Os que apertam o botão.
Os que assinam.
Os que corrigem a linguagem.
Os que tornam a violência aceitável em horário nobre.

E nós,
os que um dia aceitaram uma palavra mais leve,
os que ouviram sem interromper,
os que deixaram a língua subir
até perder o chão,
também entramos nessa escada.

Mas o sangue derramado não é discreto.
A ruína não se torna justa
por ser falada com compostura.
E o crime não deixa de ser crime
porque aprendemos a aceitá-lo.

Há sempre, no fundo de tudo isto,
uma criança que não entra na linguagem,
uma mãe que não encontra nome para o que perdeu,
milhares de corpos que ficam do lado de fora
da frase contorcionista.

É por isso que a mentira falha,
porque a dor não é elegante,
não cabe no ecrã,
não se deixa reduzir à medida
em que a razão dos monstros
gostaria de a encerrar.

E nós,
nós que aceitamos a palavra mais leve,
nós que ouvimos sem interromper,
nós que deixámos a língua subir
até perder o chão,
somos chamados a regressar
ao peso exacto das coisas.

A chamar sangue ao sangue.
A chamar morte à morte.
A chamar crime ao crime.
E a recusar, com toda a nossa humanidade,
a gramática que o torna aceitável.

§

Fátima Vale