Fernando Lemos, mão acesa
A VOZ E A CASCA DE NÓS
– sabes? as horas? os desertos? a corrida de carrinhos de compras.
as bombas. a memória das balas perdidas. os náufragos.
a gaiola semanal. o desenho da luz. as causas à boca de sino.
a lua a nascer na manhã errada. o sol a derramar-se para dentro da pele. sabes? aquele busto no metro? o livro dedicado.
o abandono. a vida de merda dos melhores de cada tempo.
o lixo. sabes? os tapetes rolantes e a vontade de voar.
a carta futura com data antecedente ao encontro? o silêncio público. o ruído privado. o algodão do sucesso e o poliéster do embrulho. que prende a prenda que somos? metros. mãos entrelaçadas sobre a mesa. os nossos pais dentro do vinho. o gelo das mães longínquas. as natas.
e agora? a fenda peregrina.
os cavalos dentro do sangue.
o trote das veias. as ruas cheias de gente. o povo vazio? as pedras de arremesso e o quartzo da voz? a corrente das águas. a viagem. o charco parado. aprenderei a tocar viola para fugir de ti? quero a música das nossas mãos paradas.
a dança antiquíssima da língua. será este o gesto – amo-te por isso parto? um espanto de saias rodadas. porque desacontecemos tanto?
porque somos os segundos nas nossas horas?
cordas e sopros por dedos de vento e mãos de fogo jogando cartas. corta-me o triunfo.
a voz e a casca de nós.
– sabes? as horas? os desertos? a corrida de carrinhos de compras.
as bombas. a memória das balas perdidas. os náufragos.
a gaiola semanal. o desenho da luz. as causas à boca de sino.
a lua a nascer na manhã errada. o sol a derramar-se para dentro da pele. sabes? aquele busto no metro? o livro dedicado.
o abandono. a vida de merda dos melhores de cada tempo.
o lixo. sabes? os tapetes rolantes e a vontade de voar.
a carta futura com data antecedente ao encontro? o silêncio público. o ruído privado. o algodão do sucesso e o poliéster do embrulho. que prende a prenda que somos? metros. mãos entrelaçadas sobre a mesa. os nossos pais dentro do vinho. o gelo das mães longínquas. as natas.
e agora? a fenda peregrina.
os cavalos dentro do sangue.
o trote das veias. as ruas cheias de gente. o povo vazio? as pedras de arremesso e o quartzo da voz? a corrente das águas. a viagem. o charco parado. aprenderei a tocar viola para fugir de ti? quero a música das nossas mãos paradas.
a dança antiquíssima da língua. será este o gesto – amo-te por isso parto? um espanto de saias rodadas. porque desacontecemos tanto?
porque somos os segundos nas nossas horas?
cordas e sopros por dedos de vento e mãos de fogo jogando cartas. corta-me o triunfo.
a voz e a casca de nós.
Fátima Vale
