08 abril, 2026

lógicas do corpo


 

Impossible d’ignorer, en tout premier lieu, le sentiment de dispersion lorsque est évoquée l’existence du corps : multiplicité de références, de l’organique au psychique ; profusion de sensations, des plus immédiates aux plus disparates ; émiettement du quotidien, du plus convenu au plus inattendu. Mais impossible aussi d’ignorer les voies d’une unité possible. À commencer par l’expérience suggestive de l’amputé, ayant le sentiment parfois douloureux que son membre continue d’exister, au point de le hanter. Descartes y voit le signe de l’illusion du sensible : « raison (supplémentaire) de douter » ; alors qu’il est possible d’y voir le signe d’une référence décisive : représentation d’ensemble guidant le tout, unification des parties en pensée, distribution de leur rôle, principe intégral permettant de commander et de coordonner les actions ; preuve, s’il en est, de l’existence d’une « vision intérieure » et globale, traversée intime du corps dans sa totalité, si importante qu’elle continue d’intégrer le membre absent. Un tel signe est central, aussi irremplaçable qu’opérationnel, aussi fonctionnel que premier. Une autre expérience, plus douloureuse, plus convaincante encore, le confirme comme jamais : celle de la chute totale et pathologique d’un tel repère, son effacement maladif, étendu à l’ensemble du corps, « vision intérieure » annulée, drame ouvrant sur des témoignages horrifiés : ne plus « se représenter » physiquement, c’est ne plus « être ». Une fois cette même représentation abolie, c’est l’existence elle-même, en totalité, qui s’abolit : « Quand je commence à me dissoudre, je n’ai plus de mains ; je me mets dans l’encoignure d’une porte, parce que j’ai peur de me faire piétiner. Tout s’échappe de moi », disent certains patients de Paul Schilder.
 

Georges Vigarello
 

Impossível ignorar, em primeiro lugar, o sentimento de dispersão quando se evoca a existência do corpo : multiplicidade de referências, do orgânico ao psíquico ; profusão de sensações, das mais imediatas às mais díspares ; fragmentação do quotidiano, do mais consensual ao mais inesperado. Mas também é impossível ignorar os caminhos de uma possível unidade. Começando pela experiência sugestiva do amputado, tendo a sensação por vezes dolorosa de que o seu membro continua a existir, ao ponto de o assombrar. Descartes vê aí o sinal da ilusão do sensível : « razão (suplementar) de duvidar » ; quando é possível ver aí o sinal de uma referência decisiva : representação de conjunto que guia o todo, unificação das partes em pensamento, distribuição do seu papel, princípio integral que permite comandar e coordenar as ações ; prova, se é que existe, da existência de uma " visão interior " e global, atravessando intimamente o corpo na sua totalidade, tão importante que continua a integrar o membro ausente. Tal sinal é central, tão insubstituível quanto operacional, tão funcional quanto primeiro. Outra experiência, mais dolorosa, mais convincente ainda, confirma-o como nunca : a da queda total e patológica duma tal referência, do seu apagamento doente, extenso ao conjunto do corpo, " visão interior " anulada, drama que se abre sobre testemunhos horrorizados : já não " representar-se " fisicamente, é já não " ser ".  « Quando começo a dissolver-me, já não tenho mãos ; coloco-me na retaguarda de uma porta, porque tenho medo de ser esmagado. Tudo escapa de mim », dizem alguns pacientes de Paul Schilder