25 junho, 2026

El mundo es un establo de muertos / O mundo é um estábulo de mortos

III
El mundo es un establo de muertos. Una flota de ataúdes bajo tierra. En las noches, remontan sus pasados, recuerdan de sus vidas caducas número y entrecalles. Nuestros muertos entran a casa sin premura, con llaves propias. Prenden cada hornilla de la estufa. Abren la puerta del refrigerador, se le sientan enfrente y, bañados por su luz fría, discuten con él en su idioma de gerundios mecánicos. Se cepillan los dientes con nuestros cepillos. Juegan a probarse nuestra ropa, se burlan de nuestros calcetines disparejos. Yo también, recién entrada y sin tocarlos, vi que tenían hambre, yo también, y sin tocarlos, quise gritar sus nombres, vi que habían dejado sus uñas de alejados centímetros en sus ataúdes y quise decirles yo también y quise yo, recién entrada, afilar mi rostro con la luz de sus voces. Yo, siendo quien soy, quien habla y desde dónde. Pero no hicieron caso. Respondieron apenas a mi cuerpo, como si fuera el recuerdo de sus vivos atravesándolos con un escalofrío invertebrado. Sentada en las orillas, los vi con bocas abiertas realizar el simulacro del llanto sin lágrimas. En realidad no están tristes; no les alcanza el cuerpo para tanto. La oscuridad les pesa como tierra mojada. Domesticados como mascotas insomnes, miran los semáforos de las calles vacías y tratan de recordar el nombre de los colores. Yo, recién entrada, quise olvidar para quedar tan trunca como ellos, pero en mis labios rojo, verde, amarillo, como quien come flores. Los desintegra el olvido de los vivos: cada facción olvidada se borra de sus rostros, se oscurece. Yo quise tomarlos de las manos, pero ellos se negaron a entrelazar sus dedos con los míos y supe que tampoco ahí pertenecía. Quise reconocer su celo, pero ellos nunca. Supe entonces que ni siquiera ahí, que yo tampoco, yo, recién entrada. Al salir de vuelta a la vida me pregunto: ¿se cansan los muertos de tanto aguantar la respiración? El suyo es un mundo submarino y sus movimientos son leves como de medusas que apenas creen en su cuerpo y se miran a través de sí mismas.
 
 
Elisa Díaz Castelo

 
III
O mundo é um estábulo de mortos. Uma frota de caixões debaixo da terra. À noite, eles recordam os seus passados, lembram as suas vidas caducas  e ruas transversais. Os nossos mortos entram em casa sem pressa, com chaves próprias. Acendem todas as bocas do fogão. Abrem a porta do frigorífico, sentam-se diante e, banhados pela sua luz fria, discutem com ele no seu idioma de gerúndios mecânicos. Escovam os dentes com as nossas escovas. Brincam a experimentar as nossas roupas, gozam com as nossas meias desemparelhadas. Eu também, acabada de entrar e sem os tocar, vi que estavam com fome, eu também, e sem os tocar, quis gritar os seus nomes, vi que tinham deixado as unhas a centímetros de distância nos seus caixões e quis dizer-lhes eu também e quis, acabada de entrar, amolar o meu rosto com a luz das suas vozes. Eu, sendo quem sou, quem fala e de onde. Mas eles não me deram ouvidos. Responderam apenas ao meu corpo, como se fosse a lembrança dos seus vivos a atravessá-los com um calafrio invertebrado. Sentada à margem, vi-os com as bocas abertas a realizar o simulacro do choro sem lágrimas. Na verdade não estão tristes ; o corpo não dá para tanto. A escuridão pesa-lhes como terra molhada. Domesticados como animais de estimação insones, olham para os semáforos das ruas vazias e tentam lembrar-se do nome das cores. Eu, acabada de entrar, quis esquecer para ficar tão incompleta quanto eles, mas nos meus lábios vermelho, verde, amarelo, como quem come flores. São desintegrados pelo esquecimento dos vivos : cada fação esquecida é apagada dos seus rostos, escurece. Quis apertar-lhes as mãos, mas recusaram-se a entrelaçar os dedos deles com os meus e soube que tampouco pertencia ali. Quis reconhecer o seu zelo, mas eles nunca. Soube então que nem sequer aí, que eu também não, acabada de entrar. Ao voltar para a vida, pergunto-me: os mortos cansam-se de tanto suster a respiração? O mundo deles é um mundo subaquático e os seus movimentos são leves como medusas que mal acreditam no seu corpo e se olham através de si mesmas.

22 junho, 2026

Sans oublier le signe / Sem esquecer o sinal


Sans oublier le signe de la véritable identité
 
L'image de la poupée me ressemblant offerte à mon père
par Annie Besnard, premier amour d'Antonin Artaud,
le masque d'Artaud sur la table de travail de mon père
les livres d'Artaud, le tableau d'Artaud l'exécration
du Père-Mère dans notre salon, la poupée de l'île
Saint-Louis (en porcelaine avec de longs cils noirs,
une petite robe en organdi bleu, la peau ivoire)
 
 
Sandra Moussempès
 
 
Sem esquecer o sinal da verdadeira identidade
 
A imagem da boneca que se parece comigo, oferecida ao meu pai
por Annie Besnard, primeiro amor de Antonin Artaud,
a máscara de Artaud na mesa de trabalho do meu pai
os livros de Artaud, o quadro de Artaud a execração
do Pai-Mãe no nosso salão, a boneca da ilha
Saint-Louis ( em porcelana com longos cílios pretos,
um pequeno vestido de organdi azul, pele de marfim )

20 junho, 2026

pour savoir où tu es / para saber onde estás

 
Je déplie une carte
pour savoir où tu es
 
quel chemin suivre
dans les méandres
 
si les animaux traversent
les champs déserts
 
si comme eux
un frisson court en moi.
 
 
Valérie Canat de Chizy ? Marie-Noëlle Agniau ?
 
 
Desdobro um mapa
para saber onde estás
 
que caminho seguir
nos meandros
 
se os animais atravessarem
os campos desertos
 
se como eles
um arrepio correr em mim.

18 junho, 2026

In the Municipal Pool / Na Piscina Autárquica

 
In the Municipal Pool
 
In the municipal pool
beside the parenting room
where I go, betimes,
to attend my inner child
 
water is falling
from the closed communal showers.
Clear, hot, chemical,
moving – utterly free –
 
steam ascends
to the foam white ceiling tiles.
In the farthest stall
where the drain grids hiss
 
an Italian woman
is chatting and laughing.
She is what I imagine
Elena Ferrante
 
might look like naked:
mature and handsome –
at ease in our world
of women without men.
 
Clear, hot, chemical,
moving – utterly free –
the waters flow,
are flowing and flown,
 
as outside sun shines
and history beats
on the roof
of the gynaeceum.
 
 
Leontia Flynn
 

 
Na Piscina Autárquica
 
Na piscina autárquica
ao lado da sala de parentes
onde vou, às vezes,
atender a minha criança interior
 
a água está em queda
nas cabines públicas de chuveiros.
Clara, quente, química,
movendo-se - absolutamente livre -
 
o vapor ascende
aos azulejos do teto de espuma branca.
Na barraca mais distante
onde o ralo chia pelas fendas
 
uma mulher italiana
conversa e ri.
Ela é como eu imagino
Elena Ferrante
 
pode parecer nua :
madura e bonita -
à vontade no mundo nosso
de mulheres sem homens.
 
Claras, quentes, químicas,
em movimento - completamente livre -
as águas correm,
fluem e levam-se,
 
enquanto lá fora brilha o sol
e a história bate
na cobertura
do gineceu.

14 junho, 2026

sufrimiento fetal / sofrimento fetal

 II
 
He caído en este cuenco de barro frío, una cueva de carne que, poco a poco, se seca. Soy la guardiana de una clepsidra que deja escapar el tiempo. Mis días gotean, se fugan. Y no entiendo la lengua de mi madre. Mi madre canta y no comprendo el golpeteo de sus sílabas. Canción de madera. Canción incendio. Qué oscura es la voz de mi madre. Y sus letras caen como plomo en mis oídos.


Alejandra Estrada Velázquez
 
 
II
 
Caí nesta tigela de barro frio, uma cova de carne que aos poucos se seca. Sou a guardiã de uma clepsidra que deixa o tempo escapar. Os meus dias gotejam-se, perdem-se. E não entendo a língua da minha mãe. A minha mãe canta e não entendo o bater das suas sílabas. Canção de madeira. Canção incêndio. Quão escura a voz da minha mãe. E as suas letras caem como chumbo nos meus ouvidos.

11 junho, 2026

o país subterrâneo

 
O PAÍS SUBTERRÂNEO
 
Portugal acorda cedo.
 
Ainda o sol não abriu os olhos
e já as mães empurram os filhos
para dentro das mochilas maiores do que eles.
 
As escolas esperam-nos.
 
Grandes aquários de luz fluorescente
onde os peixes aprendem a repetir o nome do oceano
sem nunca terem visto o mar.
 
Nas salas de aula
há crianças sentadas sobre pequenos vulcões.
 
Algumas chegam com galáxias inteiras nos bolsos.
Outras trazem florestas.
Outras transportam animais desconhecidos
a ronronar dentro do peito.
 
Ao fim de alguns anos
já quase todas sabem preencher quadrículas.
As florestas desapareceram.
Os animais aprenderam a obedecer.
As galáxias foram substituídas
por respostas de escolha múltipla.
 
Lá fora
 
o país continua a fabricar emigrantes
com a paciência artesanal
com que antigamente fabricava caravelas.
Não exporta cortiça.
Não exporta vinho.
Exporta futuros.
Todos os dias.
 
Em caixas cuidadosamente embaladas.
Os aeroportos são as verdadeiras maternidades nacionais.
Ali nascem os físicos.
Ali nascem os compositores.
Ali nascem os médicos.
Ali nascem os poetas.
Ali nascem os filhos que o país
não consegue sustentar sem lhes pedir perdão.
 
E é extraordinária a serenidade do desastre.
 
Nas praças continuam os pombos.
Nos cafés continua o açúcar.
Nos discursos continua a palavra
excelência.
Só a excelência continua ausente.
 
Entretanto
nos ministérios cresce uma vegetação estranha.
Trepadeiras de burocracia sobem pelas paredes.
Há fungos de pareceres.
Há líquenes administrativos.
Há corredores inteiros
ocupados por espécies protegidas de carimbo.
Os funcionários deslocam-se lentamente
para não assustar os formulários.
 
A cultura habita mais abaixo.
Na cave.
Entre os canos velhos.
 
Os poetas respiram por guelras.
Os pintores alimentam-se de pigmentos.
Os músicos queimam os móveis
para aquecer os instrumentos.
 
De vez em quando
aparece uma comitiva estrangeira.
Então abre-se uma porta.
Mostram-se três artistas.
Dois cientistas.
E uma bailarina.
Como quem mostra os seus linces ibéricos.
Depois volta a fechar-se tudo.
 
A conservação da raridade
é uma das especialidades nacionais.
Mas o país gosta dos mortos.
Os mortos não exigem orçamento.
Os mortos não apresentam candidaturas.
Os mortos não falham indicadores.
Por isso recebem estátuas.
Os vivos recebem palavras de incentivo.
 
E assim seguimos.
 
Como um velho paquete imóvel
convencido de estar a atravessar oceanos.
 
Como um relógio
que dá sempre a mesma hora
e se julga eterno por isso.
 
Como uma árvore
que exporta todos os frutos
e passa os anos
a contemplar os próprios ramos.
 
À noite
 
quando as cidades adormecem
 
ouve-se um ruído estranho
debaixo da terra.
 
Não são máquinas.
Não são comboios.
São milhões de asas.
 
As asas que as crianças desenharam
nos cadernos da escola.
As mesmas que lhes apagaram.
As mesmas que continuam lá.
 
Debaixo do país.
 
À espera.
 
§
 
Fátima Vale