07 fevereiro, 2026

cuerpos pasajeros / corpos passageiros

 
Anxo Pastor


Pero hay furia.
Nunca es igual el amor.
El agua llega hasta el paseo.
Furia sin frío.
No hay navegantes ni nadadores, pero
se ven las luces de un barco que no va a la
deriva. Luces de barco firmes en un mar descompuesto y frío.
 
Mas há fúria.
Nunca é igual o amor.
A água chega ao passeio.
Fúria sem frio.
Não há marinheiros ou nadadores, mas
veem-se as luzes de um barco que não está à
deriva. Luzes de barco firme num mar decomposto e frio.
 
El reloj marca otra hora;
no debería estar ahí, es mucho más tarde
de lo que parece.
Debería haber pasado por ahí unas horas antes
pero aún me quedo mirando las flores
por el camino de los círculos
el estanque y su pared de libélulas,
dragones voladores y damiselas
buscando el insecto del dibujo.
 
O relógio marca outra hora ;
não devia estar ali, é muito mais tarde
do que parece.
Devia ter passado por ali umas horas antes
mas ainda fico a olhar para as flores
pelo caminho dos círculos
o lago e a sua parede de libélulas,
dragões voadores e donzelas
à procura do inseto do desenho.
 
 
Eli Tolaretxipi


03 fevereiro, 2026

O RITO VAZIO DO NOME-DO-PAI

 
ABERTURA     
O mito forja-se em comum, a quente,
com o ferro em brasa do ressentimento.
E o neurótico já não guarda a dor para si.
Ergue um altar à própria ferida,
e convoca uma nação de reflexos
que devolvem, deformado,
o vazio a que chama eu.
 
Entretanto, Lisboa respira por dentro das fachadas de azulejo;
os eléctricos passam-lhe por dentro das veias;
o Tejo é um olho que não dorme.
E o mito ganha fôlego.
A palavra-Pai é cuspida e bendita ao mesmo tempo.
 
PROCLAMAÇÃO
ELE encarna a palavra-Pai.
UM Pai da ordem.
UM Pai das fronteiras.
UM Pai da lei proclamada com a boca cariada.
Mas o trono é um tabuleiro de cartas
soprado pelo vento do Outro.
Cartas molhadas. Cartas queimadas.
Cartas com nomes de santos e de bancos.
 
Vasculha os armazéns da história,
recolhe significantes gastos,
palavras-amuleto polidas até perderem o corpo,
e brande-as contra o mundo.
Esfrega-as no peito
até brilharem por fora
e soarem ocas por dentro.
Invoca um Pai morto.
E sabe.
Por isso a sua fala é um luto em circuito fechado.
É uma repetição ritual, marcha de autómata;
o comício como missa invertida:
re-ENCONTRAR (sempre)
a falta que o funda.
 
É contador de DÉBITOS IMAGINÁRIOS.
Instala facturas sobre os corpos.
Transfere a culpa para vozes estranhas.
FACTURA O FUTURO A QUEM JÁ VEIO.
“DEVEM-NOS” — proclama —
e empilha factos que só existem enquanto medo.
A dívida é inapagável
porque o que lhe falta
é precisamente o reconhecimento simbólico
que jamais concederá.
Então inventa inimigos.
RATOS metafóricos — / roem / as / paredes / do / consenso.
RATOS com bilhete de identidade.
Ratos com oração.
Ratos com facturas.
Ele oferece-se como cobrador supremo,
gestor da angústia colectiva,
director clínico de uma nação revoltada.
 
O MITO é uma cápsula de gozo envenenado.
PROMETE INTEIREZA.
Mas o que entrega
é a cavidade.
A fractura.
O resto.
Precisa do traidor,
do bode-expiatório,
da ameaça que legitima.
Sem o fantasma do Outro malévolo
a construção implode, como igreja sem altar,
como praça sem mágoa.
A sua palavra não procura o diálogo.
PROCURA A EXCITAÇÃO DO ÓDIO.
Procura um afecto que, por um instante,
faz acreditar na plenitude.
Fala sempre para um objecto perdido.
— UMA PÁTRIA-FANTASMA. —
Um passado fabricado
que só existe
em CONTRASTE com o pânico presente.
O mito pessoal → EPIDEMIA.
O neurótico → XAMÃ.
RECEITA o seu sintoma como remédio colectivo.
Mas o inconsciente NÃO se pluraliza.
REPETE-SE.
O conjunto que se agarra ao mito alheio
para não encarar o próprio buraco
limita-se a ECOAR
os mesmos rituais de desprezo.
NO FIM: o espectáculo.
Um homem que, para não ver
que o seu desejo é desejo-do-Pai,
arrastou um país inteiro
para representar, com ele,
a mesma farsa.
 
A CORTINA cairá.
as cordas do palco serão roídas
pelos ratos inventados.
E o VAZIO — intacto, soberano —
escolherá o próximo actor.



 
Fátima Vale
In : O Rito Vazio Do Nome Do Pai (livro em construção)

"No meio do inferno, há alguém, ou algo, que respira o cosmos como resistência mínima: a prova de que nem tudo foi capturado. Essa respiração não salva o mundo, mas impede o fecho total do sentido."