01 abril, 2026

un pájaro en la boca / um pássaro na boca

 
a veces encierro dulcemente
un pájaro en la boca
para sentir el temblor
de todas las muchachas
con úteros vacíos
manos desplegadas
impacientes por ser alguna nube
aunque la sangre desmiembre
cada día sus cuerpos
odio a estas muchachas
porque nadie me dio palabras
para reconocer que las deseo
otras veces miro al cielo
y soy una de ellas
con las extremidades divididas
a la espera de un ángel
 
 
Laura Rodríguez Díaz
 
 
às vezes encerro docemente
um pássaro na boca
para sentir o tremor
de todas as raparigas
com úteros vazios
mãos desdobradas
impaciente por serem uma nuvem
mesmo que o sangue desmembre
todos os dias os seus corpos
odeio essas raparigas
porque ninguém me deu palavras
para reconhecer que as desejo
outras vezes olho para o céu
e eu sou uma delas
com os membros divididos
à espera de um anjo


27 março, 2026

Tel Aviv — a noite que esvoaça


 
Sobre Tel Aviv,
milhares de corvos
vêm lembrar à manhã
que toda a claridade transporta a sua sombra.
 
Como se o céu tivesse sido rasgado
por uma mão de vento e cinza,
voam.
Voam como uma escrita sem tradução
que, no entanto, o corpo entende
na parte mais antiga da dor.
 
Vê-se a cidade
e o que a cidade tenta não ver.
Vê-se o muro como um hábito do medo.
Vê-se o mapa dobrado sobre a mesa
como se a terra fosse de papel.
Vê-se a oliveira cortada
e a seiva a subir, a subir, a subir,
como sobe uma memória
no tronco de uma mãe.
 
Não há símbolo bastante vasto
para caber no que está vivo.
Não há superstição assaz profunda
para explicar o voo.
Os corvos sabem apenas
o peso do ar antes da queda,
a alteração mínima da matéria
quando a violência entra no mundo
e o mundo finge que não treme.
 
Mas a pedra treme.
A água subterrânea treme.
A menina que encosta a mão à poeira treme
sem saber o nome disso.
 
O olhar dela não pede absolvição, nem história,
nem sequer justiça.
Pede apenas que o mundo
não seja mais duro do que o coração que a bombeia.
 
E há crianças canoras
a nascer noutros jardins,
com a boca cheia de romãs
e de ausência,
com o primeiro choro a subir
como um beija-flor sobre os telhados.
Há tapetes
com labirintos de ouro gasto.
Há nomes que não se deixam apagar pelo silvo do terror.
Há avós dentro das sementes.
Há casas que continuam de pé
na respiração de quem foi expulso.
 
Tel Aviv escuta
o rumor da oliveira,
o sal do mar,
a língua enterrada,
a frase interrompida,
a fruta que amadurece
mesmo longe da árvore.
 
Os corvos passam
e o seu voo não pertence a ninguém.
Atravessam a antiga ferida da altura,
onde os homens
decidem quem pode existir inteiro
e quem deve viver em fragmentos.
 
Nenhum deus assina este tempo.
Nenhum céu lava a mão que lança o projéctil.
A matéria tem a sua memória.
E a terra, quando parece vencida,
guarda no fundo uma fidelidade mineral
que ninguém consegue governar.
 
Tel Aviv,
é a claridade onde os corvos escrevem
a negra gramática do real.
É o lugar onde a noite esvoaça
sem cair,
porque cair seria terminar
e o que existe ainda
não termina:
muda de forma,
entra na respiração,
volta à seiva,
volta à pedra,
volta ao olhar da menina,
volta à boca da terra
que ainda pronuncia
o nome do que lhe foi arrancado.
 
E a noite que esvoaça
não se detém sobre Tel Aviv,
desliza,
apenas desliza,
tocando com a asa
a indiferença das nuvens.
 
§
 
Fátima Vale 

24 março, 2026

ojos plomizos eran / olhos plúmbeos eram

 
Caían esquirlas del tejado
y aullaban los perros.
El terremoto cuarteó el bahareque de las paredes
donde tantos tesoros
escondimos para ti.
La abuela impidió que tu pequeño cuerpo
fuera lanzado
a los canales del hospital.
Te dispuso en tu cajita blanca
y alimentó el misterio de tus ojos:
 
ojos plomizos eran,
como la crecentada cuando erosiona las montañas,
redondos, humedecidos por la garúa de agosto
cuando hay tanto viento,
apagados en la ceniza de promesas incumplidas.
 
Una lámina de papel de arroz apareció
entre mis ojos y los tuyos
y mi cabeza de cinco años se embarcó
como polizón en tu caja pequeña.
 
La abuela
fundadora de un contracosmos orgánico
preparó el puñado de cal para tu fosa:
ahí te dejó,
estrella con la clavícula rota por los fórceps.
 
 
Bernardita Maldonado
 
 
Caíam derrocas do telhado
uivavam os cães .
O terramoto rachou o bajareque das paredes
onde tantos tesouros
escondemos para ti.
A avó impediu que o teu pequeno corpo
fosse atirado
aos canais do hospital.
Dispõs-te na tua caixinha branca
alimentou o mistério dos teus olhos:
 
olhos plúmbeos eram,
como a enxurrada quando erode as montanhas,
redondos, humedecidos pela morrinha de agosto
quando há tanto vento,
apagados nas cinzas de promessas não cumpridas.
 
Uma folha de papel de arroz apareceu
entre os meus olhos e os teus
a minha cabeça de cinco anos embarcou
como uma clandestina na tua pequena caixa.
 
A avó
fundadora de um contracosmos orgânico
preparou o punhado de cal para a tua vala :
aí te deixou,
estrela com a clavícula partida pelos fórceps.