10 janeiro, 2026

un peu de gaz au fond de vos yeux / um pouco de gás no fundo dos olhos

 
une lueur me prend à l’estomac. je veux comprendre. les cortégraphes expliquent, schémas à l’appui. à votre naissance, votre mémoire n’était rien de plus qu’un peu de gaz au fond de vos yeux. pour se constituer, faire matière, la mémoire agrège autour d’elle toutes les poussières présentes dans son environnement : poussières issues des bouches des parents, des bouches des grands-parents, des bouches du reste de la famille, des bouches des voisinexs, des bouches des présentateuricexs, du journal de 20h, des bouches des adorables cochons dans les livres d’histoires avant de s’endormir, des bouches des copainexs, des couinexs, des idoles… oui, toutes les bouches font de la poussière pour constituer la planète qui vous servira de mémoire durant la vie entière. son sol est composé des grains de toutes les voix que vous avez entendues jusqu’à l’âge de 7 ans. après ça, eh bien, ça reste stable. c’est d’ailleurs à ce moment-là que les souvenirs cessent de s’enfuir.

 
Héloïse Brézillon
 

uma faísca puxa-me pelo estômago. quero compreender. os mapeadores do córtex explicam, gráficos detalhados. Ao nascer, a memória era apenas um pouco de gás no fundo dos olhos. para se constituir, para (pro)criar, a memória agrega à sua volta todas as poeiras presentes no seu ambiente: poeira das bocas dos pais, das bocas dos avós, das bocas da restante família, das bocas da vizinhança, das bocas de quem faz apresentações, do jornal das 20h, das bocas dos adoráveis porcos nos livros de histórias antes de adormecer, das bocas das amizades, de quem guincha, dos ídolos... Sim, todas as bocas fazem poeira para constituir o planeta que servirá de memória toda a vida. o seu solo é composto pelos grãos de todas as vozes ouvidas até à idade de 7 anos. depois disso, bem, ele permanece estável. É nesse momento que as lembranças deixam de fugir.

05 janeiro, 2026

au pays des pépères / na terra dos avozinhos

 
Tous les ans, au pays des pépères
il y a trois cents bébés répertoriés
trois cents minuscules pas perçus
qui enrôlés dans un cache-cache
stoppent net le jeu
qui n’en est pas un
 
Aurélie Olivier
 
Todos os anos, na terra dos avozinhos
há trezentos bebés inventariados
trezentos minúsculos desapercebidos
que alistados nas escondidas
param bruscamente o jogo
que não o é.


caminhando no ar

 

03 janeiro, 2026

El temblor / O tremor


Anxo Pastor



El temblor
 
A Rosalía de Castro
 
Y es una flor que quiere
echar su aroma al viento.
Antonio Machado
 
Todo tiembla en este universo que habitamos. La condición terrestre que de tan diversas maneras ha sido señalada, la de la gravedad —notoriamente, todo pesa aquí, todo lo real se sostiene sobre algo— podría ser señalada por esta condición del temblor tan emparentada con la del peso. Tiembla todo lo vivo. Y hasta ese astro muerto, según nos dicen que es la Luna, emite una luz temblorosa: «Lúa descolorida / como cor de ouro pálido.» No es una simple mención, sino una innovación reveladora: «vesme e non quixera / me vises de tan alto / O espaso que recorres, lévame, caladiña, nun teu raio,» Ya que aquella que define o señala en modo suficiente una condición, un modo de ser y de estar, de estar aquí padeciendo sobreabundantemente por ello es un sentirse bajo la mirada del extraño astro que tiembla a su vez. Exilio planetario que Rosalía de Castro logra por la intensidad y pureza de su palabra naciente, carácter de revelación. Y, como toda revelación humana, transciende al individuo que la da casi ritualmente, en un acto de total entrega y, paradójicamente, de olvido de sí. Pues que habla desde sí, desde un sí mismo que se ha hecho lugar de un sentir universal, de un paso de la pasión de lo humano y de su peregrinar.
 
Pide este ser errante y desconocido, sumido en ese inmenso espacio cósmico, un albergue, un lugar íntimo y abierto al par, entrañable; una especie de entraña, este lugar, donde el desconocido, tembloroso ser humano, delegado en verdad de todo ser viviente, pueda vivir celándose y al par abriéndose. Y recibir la temblorosa luz emitida por seres de lo alto, que han de residir en verdad en alguna entraña celeste; y piden sin descanso «descender», si acaso ellos a su modo no ascienden al mirarnos. Pues que los seres naturales aparecen entre la luz y la sombra bajo el amparo de lo visible que tiembla. El temblor es un modo de palpitar que responde a una llamada sin argumento: una palabra sin oído, un pensamiento que se deslíe en el aroma. El algo divino que llama desde antes de que el hombre se le diera la palabra. Señor de la palabra, podría ser titulado. Un señor que enseñorea sin oír. Propietario, entonces, llega a ser de la palabra, pues que la hace suya: toda palabra es suya sin oír ninguna. Y es ella entonces, es la palabra no oída, la que hace temblar a la palabra enseñoreada. Y es el aroma inconteniblemente dado al viento lo que dice esa verdad divina, que padece y teme desde antes que asome la palabra como su perenne aurora.
 
 
María Zambrano
 
 
O tremor
 
A Rosalía de Castro
 
E é uma flor que quer
dar o seu aroma ao vento.
Antonio Machado
 
Tudo treme neste universo que habitamos. A condição terrestre que de várias maneiras tem sido apontada, a da gravidade -notoriamente, tudo pesa aqui, todo o real se sustenta sobre algo- poderia ser sinalizada por esta condição do tremor tão emparelhada com a do peso. Treme tudo o que vive. E até aquele astro morto, segundo nos dizem, a Lua, emite uma luz tremida: «Lua descolorida / como cor de ouro pálido.». Não é uma simples menção, antes uma inovação reveladora: «vês-me e não queria / que me vises de tão alto / O espaço que percorres, leva-me, caladinha, em teu raio,» Já que aquela que define ou indica de modo suficiente uma condição, um modo de ser e de estar, de estar aqui sofrendo em excesso por isso, é um sentimento sob o olhar do astro estranho que treme por sua vez. Exílio planetário que Rosalía de Castro alcança pela intensidade e pureza de sua palavra nascente, caráter de revelação. E, como toda revelação humana, transcende o indivíduo que a dá quase ritualmente, num ato de entrega total e, paradoxalmente, de esquecimento de si. Pois que fala de si mesmo, de um eu que se tornou lugar de um sentir universal, de um passo da paixão do humano e de sua peregrinação.
 
Pede este ser errante e desconhecido, mergulhado nesse imenso espaço cósmico, um abrigo, um lugar íntimo e aberto ao mesmo tempo, entranhável; uma espécie de recanto, este lugar, onde o desconhecido, tremente ser humano, delegado na verdade de todo o ser vivo, possa viver enciumado e abrindo-se ao mesmo tempo.
E receber a luz trémula emitida por seres do alto, que devem residir em verdade em algum recanto celeste; e pedem sem descanso «descer», caso eles, à sua maneira, não ascendam ao olhar para nós. Pois os seres naturais aparecem entre a luz e a sombra sob o amparo do visível que treme. O tremor é um modo de palpitação que responde a uma chamada sem argumento: uma palavra sem ouvido, um pensamento que se dilua no aroma. O algo divino que chama ainda antes do homem lhe ter dado a palavra. Senhor da palavra, poderia ser intitulado. Um senhor que domina sem ouvir. Proprietário, então, torna-se da palavra, pois a torna sua: toda a palavra é dele sem ouvir nenhuma. E é ela, então, a palavra não ouvida, que faz tremer a palavra instalada. E é o aroma incontrolavelmente dado ao vento que diz essa verdade divina, que sofre e teme ainda antes de aparecer a palavra como sua eterna aurora.