15 março, 2026

el perro tuerto / o cão zarolho

 
Una sábana cuelga del cielo y envuelve el aire. Una mucama sin brazos nos rodea y la sacude. Es el momento en que los truenos invaden el mundo. El gran pintor traza pinceladas y crea la naturaleza. Ciertas nubes se tragan el viento, quedando embarazadas y pariendo tormentas. Inspiramos las conversaciones del pasado en las que nunca estamos de acuerdo. La luna se pasea galante, seduciendo la brisa de los enamorados. Un repertorio de memorias. Los miedos de los insomnes desean ordenar las penumbras rotas. El aire es la presencia más lejana de nuestras vidas.
*
 
La puerta saboreaba su crujir al cerrarse. La ventana se quejaba de que no podía dormir. Mientras una se abría, otra se cerraba. Los vidrios, más perezosos, reflejaban la luz del día. El momento máximo de la enemistad entre la puerta y la ventana fue un comentario de la puerta. Había visto desnuda a la claraboya mirando el cielo celeste. La ventana enfurecida salió con vehemencia a defender a su hermana. Y fue así que oscureció con cortinas el pasillo a la puerta y convenció a su prima bisagra de que no se abriese. La puerta enmudeció sus crujidos y se mantuvo cerrada.

*
 
Golpeaba la puerta con premura. De las bisagras brotaban lágrimas, por el dolor que producían las sanguijuelas que actuaban como clavos. El golpe resonaba como un presagio lúgubre, anunciando que algo aterrador estaba a punto de suceder. De las rendijas florecía un olor hediondo. Se abrió la puerta. Una mesa tendida a lo largo de la habitación nos ofrecía el aroma del té de jazmín. La imagen de una luna de queso añejo de vaca al extremo de la mesa nos tentaba. Un reloj, sumergido en un mar de leche de coco, anunciaba el crepúsculo.
 
 
Hebert Abimorad
 
 
Um lençol pende do céu e envolve o ar. Uma empregada sem braços sacode-o à nossa volta. É o momento em que os trovões invadem o mundo. O grande pintor traça pinceladas e cria a natureza. Certas nuvens engolem o vento, engravidando e provocando tempestades. Inspiramos as conversas do passado em que nunca concordamos. A lua passeia-se galante, seduzindo a brisa dos apaixonados. Um reportório de memórias. Os medos das pessoas sem sono desejam ordenar as penumbras fendidas. O ar é a presença mais distante de nossas vidas.
 
*
 
A porta saboreava o seu ranger ao fechar-se. A janela queixava-se de não conseguir dormir. Enquanto uma se abria, a outra fechava-se. Os vidros, mais preguiçosos, refletiam a luz do dia. O momento máximo da inimizade entre a porta e a janela foi um comentário sobre a porta. Tinha visto a claraboia nua olhando o céu celeste. A janela enfurecida saiu com veemência para defender a sua irmã. E foi assim que escureceu com cortinas o corredor à porta e convenceu a sua prima dobradiça a não se abrir. A porta emudeceu os seus rangeres e manteve-se fechada.
 
*
 
Batia a porta com pressa. Das dobradiças brotavam lágrimas, pela dor que produziam os parasitas que agiam como pregos. O bater ressoava como um presságio lúgubre, anunciando que algo assustador estava prestes a acontecer. Das fendas florescia um cheiro fedorento. A porta abriu-se. Uma mesa disposta ao longo da sala oferecia o aroma do chá de jasmim. A imagem de uma lua de queijo de vaca envelhecida na extremidade da mesa era tentadora. Um relógio, submerso num mar de leite de coco, anunciava o crepúsculo.


14 março, 2026

quise guardar las uñas y lamerte la nariz / quis guardar as unhas e lamber-te o nariz

 
Me hablaste de la delicadeza de los depredadores
mientras la lama de las piedras acariciaba tu espalda.
Tus garras conocen la caricia y la libertad​​
Para saberlo, solo basta ver cómo todo lo que amas se vuelve un silbido de tu​​
 manada.
 
También lo supe cuando te vi sacar a nuestra afelpada familia inventada
con un brazo mecánico en el centro comercial,
cuando le diste un beso con las pestañas a la araña enredada en mi pelo
e incendiaste una iglesia para liberar en el cielo de colores nauseabundos
a un dinoflagelado con forma de cometa.
 
Cuando una noche, entre el sueño y la vigilia, me contaste sobre la magia de
los secretos
y me susurraste al oído que sabías trasmutar las lágrimas de cocodrilo,
cuando por telepatía me dejaste ver que eras una estrella cánida.
Entonces, quise guardar las uñas y lamerte la nariz.
 
 
Paula Alejandra Castillo
 
 
Falaste-me da delicadeza dos predadores
enquanto a lama das pedras acariciava as tuas costas.
As tuas garras conhecem a carícia e a liberdade
Para saber, basta ver como tudo o que amas se torna um assobio da tua 
matilha
 
Também soube disso quando te vi puxar a nossa família inventada
com um braço mecânico no centro comercial,
quando deste um beijo de borboleta à aranha enrolada no meu cabelo
e incendiaste uma igreja para libertar no céu de cores nauseabundas
um dinoflagelado com forma de cometa.
 
Quando uma noite, entre o sono e a vigília, me falaste da magia dos segredos
e sussurraste no meu ouvido que sabias transmutar as lágrimas de crocodilo,
quando por telepatia me deixaste ver que eras uma estrela canídea.
Aí, quis guardar as unhas e lamber-te o nariz.


13 março, 2026

Nous sommes toutes l’incendie / Somos todas incêndio


Nous sommes portées noyées
Mais aux heures d’affluence
Un défibrillateur souvent poussent dans nos ventres
Pour autant il nous faut toujours un utérus
Quand la réparation s’outille de viande vivante
 
Fomos levadas afogadas
Mas nas horas de ponta
Um desfibrilhador muitas vezes crescem em nossas entranhas
Mesmo assim, precisamos sempre de um útero
Quando a reparação se equipa com carne viva
 
*
 
Nous sommes toutes l’incendie,
en vain ils sonnent l’alarme
Sur les cendres des ogres
nous bâtissons nos nids
La nuit n’existe pas
pour qui a tué ses peurs
La nuit n’existe pas
il n’y a que des chasseurs
Soyons le jour furieux
Qui fait fondre leurs fusils
 
 
Somos todas incêndio,
em vão tocam o alarme
Sobre as cinzas dos ogres
construímos os nossos ninhos
A noite não existe
para quem matou os seus medos
A noite não existe
apenas caçadores
Estaremos o dia na fúria
que faz derreter as espingardas
 
 
Chloé Delaume

11 março, 2026

Guérir / Curar

 


Qu’est-ce que la santé ?

On reproche généralement à la biomédecine de définir la maladie mais pas la santé. L’opposition binaire entre santé et maladie favorise effectivement la conception de l’une comme pure négation de l’autre. D’ailleurs, pour Georges Canguilhem, “il n’y a pas de science de la santé… Santé n’est pas un concept scientifique, c’est un concept vulgaire. Ce qui ne veut pas dire trivial, mais simplement commun, à la portée de tous”. Il dit aussi qu’
  être en bonne santé, c’est pouvoir tomber malade et s’en relever, c’est un luxe biologique”. La santé n’est pas, selon lui, l’absence de maladie mais la possibilité de la guérison si celle-ci advient. Être en santé serait être capable de faire face aux déséquilibres que ne manque de générer l’existence et de les régler, bien loin de la notion d’un état d’équilibre permanent.
La guérison serait un processus systémique de retour à l’équilibre qui se joue en permanence. Cette dynamique ne permet pas un état stable et acquis au sein du flux permanent de changements des conditions internes et externes. Il est un processus, sans cesse en train de se réaliser, de se détruire et de se reconstruire. Il est fait de permanents ajustements, adaptations, avec les moyens disponibles, aux conditions perçues. La notion de la santé comme un équilibre présuppose une dimension statique et univoque (il existerait un équilibre déterminé vers lequel toujours tendre), alors que les notions d’harmonie, ou de cohérence, du fonctionnement concerté des systèmes régulateurs semblent plus plastiques. Si la santé est un processus permanent et non plus un état, cela signifie qu’il existe plusieurs configurations possibles à tout moment pour être en santé. Et que ces configurations relèvent de choix, conscients et inconscients, que nous renégocions en permanence. D’ailleurs, Jules Romains s’amuse à travers les dires du Dr Knock de ce que tout être en bonne santé soit un malade qui s’ignore 
 
 
Aline Mercan
 
 
O que é a saúde?

A biomedicina é geralmente acusada de definir a doença, mas não a saúde. A oposição binária entre saúde e doença favorece efetivamente a conceção de uma como pura negação da outra. Aliás, para Georges Canguilhem, " não existe ciência da saúde... A saúde não é um conceito científico, é um conceito vulgar. O que não quer dizer trivial, mas simplesmente comum, ao alcance de todos ". Ele também diz que " ser saudável é poder adoecer e recuperar-se, é um luxo biológico ". A saúde não é, segundo ele, a ausência de doença, mas a possibilidade da cura se ela ocorrer. Ser saudável seria ser capaz de lidar com os desequilíbrios que a existência gera e resolvê-los, muito longe da noção de um estado de equilíbrio permanente.
A cura seria um processo sistémico de reequilíbrio que se desenrola em contínuo. Esta dinâmica não permite um estado estável e adquirido dentro do fluxo permanente de mudanças das condições internas e externas. É um processo, incessantemente em andamento, de estar destruído e poder reconstruir-se. Faz-se de constantes ajustes, adaptações, com os meios disponíveis, às condições percebidas. A noção de saúde, como um equilíbrio, pressupõe uma dimensão estática e unívoca ( existiria um equilíbrio determinado para o qual sempre se tenderia ), enquanto as noções de harmonia, ou de coerência, do funcionamento concertado dos sistemas reguladores parecem mais plásticas. Se a saúde é um processo permanente e já não um estado, isso significa que existem várias configurações possíveis em qualquer momento para ser saudável. E que essas configurações são escolhas, conscientes e inconscientes, que renegociamos em permanência. Jules Romains diverte-se com as palavras do Dr. Knock : qualquer ser saudável é um doente que não sabe que o é.