mesmorra
22 março, 2026
21 março, 2026
20 março, 2026
A Moral dos Assassinos
Lembras-te de ser trabalhador?
Havia uma verdade simples na palavra.
O corpo entrava no dia
com o seu peso,
com a sua fadiga,
com a sua teimosia contra a matéria.
Trabalhar era tocar o mundo.
E o mundo, ainda que duro,
respondia.
Os sindicatos ainda usam a palavra.
Chamam-te assim, nos panfletos, nas sedes, nas manifestações.
Mas a palavra já não te alcança.
Soa a outro tempo,
a uma dureza que já não queres para ti.
Parece que te rebaixa,
que te fixa num lugar
de onde julgas ter saído.
Substituiram-na por colaborador.
A palavra entrou devagar,
quase com gentileza.
Parecia aproximar.
Parecia suavizar.
Parecia tirar-te do fundo da fila,
e dar-te um lugar à mesa.
E aceitaste
porque era mais leve.
Porque parecia escolha.
Porque ninguém gosta de ser lembrado
daquilo de que precisa de se defender.
Já não se diz esforço.
Diz-se integração.
Já não se diz conflito.
Diz-se pertença.
Já não se diz dependência.
Diz-se participação.
E a língua, pouco a pouco,
aprendeu a não ferir.
E tu, com ela.
Foi assim, sem discussões,
que se deu o suicídio simbólico
antes da morte real.
Chamam estratégia
ao que é massacre.
Chamam precisão
ao cuidado de medir a queda.
Chamam contenção
à escolha do lugar
onde a morte deve cair
sem manchar a imagem de quem a ordena.
Vede:
a cena abre-se sem alarme.
Uma mesa.
Ecrãs.
Mapas.
Uma cidade reduzida a escombros.
Uma criança reduzida
a margem tolerável.
Milhares de crianças reduzidas a danos colaterais.
Tudo parece correcto.
Tudo parece sóbrio.
Tudo parece normal.
Onde vai o opressor buscar a razão?
Na frase certa.
Na voz sem tremor.
No relatório.
Na televisão.
Na delicadeza com que se nomeia a ruína
para que ela pareça necessária.
Como se explicam os abismos em horário nobre?
Com um tom estável.
Com palavras lavadas.
Vestindo o idioma do crime
com a roupa da ordem.
Quem são os carrascos?
Os que apertam o botão.
Os que assinam.
Os que corrigem a linguagem.
Os que tornam a violência aceitável em horário nobre.
E nós,
os que um dia aceitaram uma palavra mais leve,
os que ouviram sem interromper,
os que deixaram a língua subir
até perder o chão,
também entramos nessa escada.
Mas o sangue derramado não é discreto.
A ruína não se torna justa
por ser falada com compostura.
E o crime não deixa de ser crime
porque aprendemos a aceitá-lo.
Há sempre, no fundo de tudo isto,
uma criança que não entra na linguagem,
uma mãe que não encontra nome para o que perdeu,
milhares de corpos que ficam do lado de fora
da frase contorcionista.
É por isso que a mentira falha,
porque a dor não é elegante,
não cabe no ecrã,
não se deixa reduzir à medida
em que a razão dos monstros
gostaria de a encerrar.
E nós,
nós que aceitamos a palavra mais leve,
nós que ouvimos sem interromper,
nós que deixámos a língua subir
até perder o chão,
somos chamados a regressar
ao peso exacto das coisas.
A chamar sangue ao sangue.
A chamar morte à morte.
A chamar crime ao crime.
E a recusar, com toda a nossa humanidade,
a gramática que o torna aceitável.
§
Fátima Vale
19 março, 2026
18 março, 2026
17 março, 2026
16 março, 2026
15 março, 2026
el perro tuerto / o cão zarolho
Una sábana cuelga del cielo y envuelve el aire. Una mucama sin brazos nos rodea y la sacude. Es el momento en que los truenos invaden el mundo. El gran pintor traza pinceladas y crea la naturaleza. Ciertas nubes se tragan el viento, quedando embarazadas y pariendo tormentas. Inspiramos las conversaciones del pasado en las que nunca estamos de acuerdo. La luna se pasea galante, seduciendo la brisa de los enamorados. Un repertorio de memorias. Los miedos de los insomnes desean ordenar las penumbras rotas. El aire es la presencia más lejana de nuestras vidas.
*
La puerta saboreaba su crujir al cerrarse. La ventana se quejaba de que no podía dormir. Mientras una se abría, otra se cerraba. Los vidrios, más perezosos, reflejaban la luz del día. El momento máximo de la enemistad entre la puerta y la ventana fue un comentario de la puerta. Había visto desnuda a la claraboya mirando el cielo celeste. La ventana enfurecida salió con vehemencia a defender a su hermana. Y fue así que oscureció con cortinas el pasillo a la puerta y convenció a su prima bisagra de que no se abriese. La puerta enmudeció sus crujidos y se mantuvo cerrada.
*
Golpeaba la puerta con premura. De las bisagras brotaban lágrimas, por el dolor que producían las sanguijuelas que actuaban como clavos. El golpe resonaba como un presagio lúgubre, anunciando que algo aterrador estaba a punto de suceder. De las rendijas florecía un olor hediondo. Se abrió la puerta. Una mesa tendida a lo largo de la habitación nos ofrecía el aroma del té de jazmín. La imagen de una luna de queso añejo de vaca al extremo de la mesa nos tentaba. Un reloj, sumergido en un mar de leche de coco, anunciaba el crepúsculo.
Hebert Abimorad
Um lençol pende do céu e envolve o ar. Uma empregada sem braços sacode-o à nossa volta. É o momento em que os trovões invadem o mundo. O grande pintor traça pinceladas e cria a natureza. Certas nuvens engolem o vento, engravidando e provocando tempestades. Inspiramos as conversas do passado em que nunca concordamos. A lua passeia-se galante, seduzindo a brisa dos apaixonados. Um reportório de memórias. Os medos das pessoas sem sono desejam ordenar as penumbras fendidas. O ar é a presença mais distante de nossas vidas.
*
A porta saboreava o seu ranger ao fechar-se. A janela queixava-se de não conseguir dormir. Enquanto uma se abria, a outra fechava-se. Os vidros, mais preguiçosos, refletiam a luz do dia. O momento máximo da inimizade entre a porta e a janela foi um comentário sobre a porta. Tinha visto a claraboia nua olhando o céu celeste. A janela enfurecida saiu com veemência para defender a sua irmã. E foi assim que escureceu com cortinas o corredor à porta e convenceu a sua prima dobradiça a não se abrir. A porta emudeceu os seus rangeres e manteve-se fechada.
*
Batia a porta com pressa. Das dobradiças brotavam lágrimas, pela dor que produziam os parasitas que agiam como pregos. O bater ressoava como um presságio lúgubre, anunciando que algo assustador estava prestes a acontecer. Das fendas florescia um cheiro fedorento. A porta abriu-se. Uma mesa disposta ao longo da sala oferecia o aroma do chá de jasmim. A imagem de uma lua de queijo de vaca envelhecida na extremidade da mesa era tentadora. Um relógio, submerso num mar de leite de coco, anunciava o crepúsculo.
14 março, 2026
quise guardar las uñas y lamerte la nariz / quis guardar as unhas e lamber-te o nariz
Me hablaste de la delicadeza de los depredadores
mientras la lama de las piedras acariciaba tu espalda.
Tus garras conocen la caricia y la libertad
Para saberlo, solo basta ver cómo todo lo que amas se vuelve un silbido de tu
manada.
También lo supe cuando te vi sacar a nuestra afelpada familia inventada
con un brazo mecánico en el centro comercial,
cuando le diste un beso con las pestañas a la araña enredada en mi pelo
e incendiaste una iglesia para liberar en el cielo de colores nauseabundos
a un dinoflagelado con forma de cometa.
Cuando una noche, entre el sueño y la vigilia, me contaste sobre la magia de
los secretos
y me susurraste al oído que sabías trasmutar las lágrimas de cocodrilo,
cuando por telepatía me dejaste ver que eras una estrella cánida.
Entonces, quise guardar las uñas y lamerte la nariz.
Paula Alejandra Castillo
Falaste-me da delicadeza dos predadores
enquanto a lama das pedras acariciava as tuas costas.
As tuas garras conhecem a carícia e a liberdade
Para saber, basta ver como tudo o que amas se torna um assobio da tua
matilha
Também soube disso quando te vi puxar a nossa família inventada
com um braço mecânico no centro comercial,
quando deste um beijo de borboleta à aranha enrolada no meu cabelo
e incendiaste uma igreja para libertar no céu de cores nauseabundas
um dinoflagelado com forma de cometa.
Quando uma noite, entre o sono e a vigília, me falaste da magia dos segredos
e sussurraste no meu ouvido que sabias transmutar as lágrimas de crocodilo,
quando por telepatia me deixaste ver que eras uma estrela canídea.
Aí, quis guardar as unhas e lamber-te o nariz.
13 março, 2026
Nous sommes toutes l’incendie / Somos todas incêndio
Nous sommes portées noyées
Mais aux heures d’affluence
Un défibrillateur souvent poussent dans nos ventres
Pour autant il nous faut toujours un utérus
Quand la réparation s’outille de viande vivante
Fomos levadas afogadas
Mas nas horas de ponta
Um desfibrilhador muitas vezes crescem em nossas entranhas
Mesmo assim, precisamos sempre de um útero
Quando a reparação se equipa com carne viva
*
Nous sommes toutes l’incendie,
en vain ils sonnent l’alarme
Sur les cendres des ogres
nous bâtissons nos nids
La nuit n’existe pas
pour qui a tué ses peurs
La nuit n’existe pas
il n’y a que des chasseurs
Soyons le jour furieux
Qui fait fondre leurs fusils
Somos todas incêndio,
em vão tocam o alarme
Sobre as cinzas dos ogres
construímos os nossos ninhos
A noite não existe
para quem matou os seus medos
A noite não existe
apenas caçadores
Estaremos o dia na fúria
que faz derreter as espingardas
Chloé Delaume
Mais aux heures d’affluence
Un défibrillateur souvent poussent dans nos ventres
Pour autant il nous faut toujours un utérus
Quand la réparation s’outille de viande vivante
Fomos levadas afogadas
Mas nas horas de ponta
Um desfibrilhador muitas vezes crescem em nossas entranhas
Mesmo assim, precisamos sempre de um útero
Quando a reparação se equipa com carne viva
*
Nous sommes toutes l’incendie,
en vain ils sonnent l’alarme
Sur les cendres des ogres
nous bâtissons nos nids
La nuit n’existe pas
pour qui a tué ses peurs
La nuit n’existe pas
il n’y a que des chasseurs
Soyons le jour furieux
Qui fait fondre leurs fusils
Somos todas incêndio,
em vão tocam o alarme
Sobre as cinzas dos ogres
construímos os nossos ninhos
A noite não existe
para quem matou os seus medos
A noite não existe
apenas caçadores
Estaremos o dia na fúria
que faz derreter as espingardas
Chloé Delaume
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