18 junho, 2026

In the Municipal Pool / Na Piscina Autárquica

 
In the Municipal Pool
 
In the municipal pool
beside the parenting room
where I go, betimes,
to attend my inner child
 
water is falling
from the closed communal showers.
Clear, hot, chemical,
moving – utterly free –
 
steam ascends
to the foam white ceiling tiles.
In the farthest stall
where the drain grids hiss
 
an Italian woman
is chatting and laughing.
She is what I imagine
Elena Ferrante
 
might look like naked:
mature and handsome –
at ease in our world
of women without men.
 
Clear, hot, chemical,
moving – utterly free –
the waters flow,
are flowing and flown,
 
as outside sun shines
and history beats
on the roof
of the gynaeceum.
 
 
Leontia Flynn
 

 
Na Piscina Autárquica
 
Na piscina autárquica
ao lado da sala de parentes
onde vou, às vezes,
atender a minha criança interior
 
a água está em queda
nas cabines públicas de chuveiros.
Clara, quente, química,
movendo-se - absolutamente livre -
 
o vapor ascende
aos azulejos do teto de espuma branca.
Na barraca mais distante
onde o ralo chia pelas fendas
 
uma mulher italiana
conversa e ri.
Ela é como eu imagino
Elena Ferrante
 
pode parecer nua :
madura e bonita -
à vontade no mundo nosso
de mulheres sem homens.
 
Claras, quentes, químicas,
em movimento - completamente livre -
as águas correm,
fluem e levam-se,
 
enquanto lá fora brilha o sol
e a história bate
na cobertura
do gineceu.

14 junho, 2026

sufrimiento fetal / sofrimento fetal

 II
 
He caído en este cuenco de barro frío, una cueva de carne que, poco a poco, se seca. Soy la guardiana de una clepsidra que deja escapar el tiempo. Mis días gotean, se fugan. Y no entiendo la lengua de mi madre. Mi madre canta y no comprendo el golpeteo de sus sílabas. Canción de madera. Canción incendio. Qué oscura es la voz de mi madre. Y sus letras caen como plomo en mis oídos.


Alejandra Estrada Velázquez
 
 
II
 
Caí nesta tigela de barro frio, uma cova de carne que aos poucos se seca. Sou a guardiã de uma clepsidra que deixa o tempo escapar. Os meus dias gotejam-se, perdem-se. E não entendo a língua da minha mãe. A minha mãe canta e não entendo o bater das suas sílabas. Canção de madeira. Canção incêndio. Quão escura a voz da minha mãe. E as suas letras caem como chumbo nos meus ouvidos.

11 junho, 2026

o país subterrâneo

 
O PAÍS SUBTERRÂNEO
 
Portugal acorda cedo.
 
Ainda o sol não abriu os olhos
e já as mães empurram os filhos
para dentro das mochilas maiores do que eles.
 
As escolas esperam-nos.
 
Grandes aquários de luz fluorescente
onde os peixes aprendem a repetir o nome do oceano
sem nunca terem visto o mar.
 
Nas salas de aula
há crianças sentadas sobre pequenos vulcões.
 
Algumas chegam com galáxias inteiras nos bolsos.
Outras trazem florestas.
Outras transportam animais desconhecidos
a ronronar dentro do peito.
 
Ao fim de alguns anos
já quase todas sabem preencher quadrículas.
As florestas desapareceram.
Os animais aprenderam a obedecer.
As galáxias foram substituídas
por respostas de escolha múltipla.
 
Lá fora
 
o país continua a fabricar emigrantes
com a paciência artesanal
com que antigamente fabricava caravelas.
Não exporta cortiça.
Não exporta vinho.
Exporta futuros.
Todos os dias.
 
Em caixas cuidadosamente embaladas.
Os aeroportos são as verdadeiras maternidades nacionais.
Ali nascem os físicos.
Ali nascem os compositores.
Ali nascem os médicos.
Ali nascem os poetas.
Ali nascem os filhos que o país
não consegue sustentar sem lhes pedir perdão.
 
E é extraordinária a serenidade do desastre.
 
Nas praças continuam os pombos.
Nos cafés continua o açúcar.
Nos discursos continua a palavra
excelência.
Só a excelência continua ausente.
 
Entretanto
nos ministérios cresce uma vegetação estranha.
Trepadeiras de burocracia sobem pelas paredes.
Há fungos de pareceres.
Há líquenes administrativos.
Há corredores inteiros
ocupados por espécies protegidas de carimbo.
Os funcionários deslocam-se lentamente
para não assustar os formulários.
 
A cultura habita mais abaixo.
Na cave.
Entre os canos velhos.
 
Os poetas respiram por guelras.
Os pintores alimentam-se de pigmentos.
Os músicos queimam os móveis
para aquecer os instrumentos.
 
De vez em quando
aparece uma comitiva estrangeira.
Então abre-se uma porta.
Mostram-se três artistas.
Dois cientistas.
E uma bailarina.
Como quem mostra os seus linces ibéricos.
Depois volta a fechar-se tudo.
 
A conservação da raridade
é uma das especialidades nacionais.
Mas o país gosta dos mortos.
Os mortos não exigem orçamento.
Os mortos não apresentam candidaturas.
Os mortos não falham indicadores.
Por isso recebem estátuas.
Os vivos recebem palavras de incentivo.
 
E assim seguimos.
 
Como um velho paquete imóvel
convencido de estar a atravessar oceanos.
 
Como um relógio
que dá sempre a mesma hora
e se julga eterno por isso.
 
Como uma árvore
que exporta todos os frutos
e passa os anos
a contemplar os próprios ramos.
 
À noite
 
quando as cidades adormecem
 
ouve-se um ruído estranho
debaixo da terra.
 
Não são máquinas.
Não são comboios.
São milhões de asas.
 
As asas que as crianças desenharam
nos cadernos da escola.
As mesmas que lhes apagaram.
As mesmas que continuam lá.
 
Debaixo do país.
 
À espera.
 
§
 
Fátima Vale