17 fevereiro, 2026

Stendhal


Stendhal
 
Me miraba
 
como Stendhal perdido
en Florencia
al pórtico de Santa Croce;
como se mira el cabello de la Venus
de Hirémy-Hirschl
revolcada
en las olas
 
Me miraba
 
mezcla de fascinación
y víscera pura,
inmensa alegría
y desborde abrumador
 
Me miraba
 
como a la mismísima Afrodita
o alguna diosa
––aún no inventada––
con pureza infantil y sublime
amor
 
Me miraba
 
y con esa lágrima sutil
entendí que nadie volverá
a mirarme
así.
 
Maldita cúspide divina
desde la que ya nada
tiene la misma altura
 
para mi daño.
 
 
Esther Mañoso
 
 
Sthendal
 
Olhava para mim
 
como Stendhal perdido
em Florença
o pórtico de Santa Croce;
como se olha o cabelo de Vénus
de Hirémy-Hirschl
enrolada
nas ondas
 
Olhava para mim
 
mescla de fascínio
e vísceras puras,
imensa alegria
e transbordo avassalador
 
Olhava para mim
 
como à própria Afrodite
ou alguma deusa
- ainda não inventada -
com pureza infantil e sublime
amor
 
Olhava para mim
 
e com essa lágrima sutil
compreendi que ninguém voltará
a olhar para mim
assim.
 
Maldita cúspide divina
de onde já nada
emana a mesma grandeza
 
para meu mal.
 

15 fevereiro, 2026

Et c'est moi qu'on enferme / E é a mim que internam

 


On attend toujours en psychiatrie.

Faire attendre un fou, ça le rend fou.

Elle craint, ma mère, que je manipule le médecin, que je fasse comme si tout allait bien. Que subitement je reprenne le contrôle, je me redresse, je maîtrise mon débit, mes mots. Que je dise que « oui, je suis un peu fatiguée, mais ça va aller, il faut juste que je me repose ». Elle m’a déjà vue, même au cœur de la crise, me dissocier et faire comme si de rien n’était. Mais là, je ne suis pas en capacité d’opérer ce retournement décisif. À l’intérieur de moi c’est l’apocalypse. La peur. Est-ce qu’il existe un mot pour désigner la peur au-delà de la peur ? La terreur ? Un mot pour la terreur au-delà de la terreur ? Le traumatisme. Le traumatisme c’est la peur et la terreur enfoncées dans le cerveau au marteau-piqueur. Tout me terrifie à un point inimaginable. La froideur des néons, les murs craquelés, le sol jaunâtre carrelé, la chaise en bois mal fixée sur des barres de fer rouillées sur laquelle je suis assise, tout. La vision des femmes et des hommes en blouse blanche me donne la sensation physique que quelqu’un est en train de broyer mon cœur dans son poing.


Philippa Motte


Ainda estamos à espera na ala psiquiátrica.

Fazer um louco esperar deixa-o louco.

Ela teme, a minha mãe, que eu manipule o médico, que finja que está tudo bem. Que de repente eu recupere o controle, me normalize, domine o meu jorro, as minhas palavras. Que eu diga que « sim, estou um pouco cansada, mas vai ficar tudo bem, só preciso descansar ». Ela já me viu, mesmo no meio da crise, dissociar-me e agir como se nada tivesse acontecido. Mas agora, não sou capaz de operar essa reviravolta decisiva. Dentro de mim é o apocalipse. O medo. Existe uma palavra para designar o medo além de medo? Terror? Uma palavra para terror além do terror? Trauma. O trauma é o medo e o terror enfiados no cérebro com um martelo pneumático. Tudo me aterroriza de uma forma inimaginável. A frieza dos néons, as paredes rachadas, o chão amarelado com azulejos, a cadeira de madeira mal fixada em barras de ferro oxidado onde estou sentada, tudo. A visão das mulheres e dos homens de bata branca dá-me a sensação física que alguém está a esmagar o meu coração no seu punho.

10 fevereiro, 2026

Les Nuits échangées / As noites trocadas


Les Nuits échangées
 
Et dans nos mains l’affranchissement des insectes
qu’on écrase sans crainte,
étonnés seulement par les petites taches brunes
sur les doigts…
 
La nuit annonce un visage intérieur
visage qui ne peut ignorer la façon dont je mourrai…
Et je sens précisément dans l’approche
qu’une telle figure est visible pour être donnée.
 
Refuser ce regard.
Occulter une mémoire lointaine, totale,
une mémoire qui sait ce qui me fonde
et pourquoi je deviens.
 
 
Raphaële George
 
 
As noites trocadas
 
E em nossas mãos o carimbo dos insetos
por nós esmagados sem receio,
espantados apenas pelas pequenas manchas castanhas
nos dedos...
 
A noite anuncia uma face interior
face que não consegue ignorar como vou morrer...
E eu sinto precisamente na abordagem
que uma tal figura é visível para ser dada.
 
Recusar esse olhar.
Ocultar uma memória longínqua, total,
uma memória que sabe o que me funda
e por que me fico.