29 agosto, 2026

je vous offre mes pensées / oferendo-lhe os meus pensamentos


je vous offre mes pensées
secousses recueillies
minuscules marques sur le papier
 
je retrace les pas vers ma colère
présence fantomatique
souvent insaisissable
 
en bouche
le mot clémence
encline à pardonner
bien avant de goûter le mot révolte
 
je traverse le monde en lui permettant de m’interrompre
en me laissant être dispersée
 
je note la discrétion des mouvements
(dépasser disposer nuancer planter)
gestes amples pour accueillir
vos effusions
vos fatigues
 
 
Éloïse LeBlanc
 
 
oferendo-lhe os meus pensamentos
sismos reunidos
minúsculas marcas no papel
 
refaço o caminho até à minha raiva
presença fantomática
tantas vezes fugidia
 
na boca
a palavra clemência
tende a perdoar
muito antes de saborear a palavra revolta
 
percorro o mundo permitindo-lhe que me interrompa
deixando-me ser dispersa
 
Noto a discrição dos movimentos
( superar dispor matizar plantar )
grandes gestos para acolher
as suas efusões
o seu cansaço
 

27 agosto, 2026

Cuando se es extranjera / Quando se é estrangeira


Cuando se es extranjera
se abre una puerta y entra con más fuerza la luz.
¿Hoy quién seré?
Alguien más afable,
menos triste,
hago una pausa, le dejo al afluente las respuestas.
Soy extranjera,
no sé qué cuerpo es este
ni cuántos lo han amado.
Dije adiós a la casa materna,
me pidieron prudencia.
Atrás los arrumes de arena,
la ciudad y mi débil paso sobre el asfalto.
Soy extranjera,
escribo mi historia con una mano sorda
preparo la otra, la que borra.
 
 
Jenny Bernal
 
 
Quando se é estrangeira
abre-se uma porta e entra com mais força a luz.
Quem serei hoje?
Alguém mais aprazível,
menos triste,
faço uma pausa, deixo ao afluente as respostas.
Sou estrangeira,
não sei que corpo é este
nem quantos o amaram.
Disse adeus à casa materna,
pediram-me prudência.
Atrás os montões de areia,
a cidade e o meu débil andar sobre o asfalto.
Sou estrangeira,
escrevo a minha história com uma mão surda
preparo a outra, a que apaga.

25 agosto, 2026

tristes sons

 


Sliman Mansour 

Soberbia / Soberba


Soberbia
 
Somos
centros de círculos,
somos
centros de mundos
pensamos la palabra:
«yo»
cerrados en ella como con llave:
mi circunscripción, mi circunscripción c e n t r a l
no quiere hermanarse con la tuya:
somos
centros de círculos
y nos separan
siete colinas — —
 
nuestros círculos crecen de orgullo,
se inflan de soberbia,
—¡oh, círculos
lacustres de agua,
— oh, fama
que te agrandas!
en el chapoteo de la lejanía
ya no se oye nuestra propia ola —
nos perdemos en la hipertrofia desbocada
como en ciudades de hormigón armado.
 
— ¿De qué hablamos?
De nosotros,
que es bueno ser tu propio timonel,
que la libertad es nuestra patria
y nuestro orgullo multiplicado por cien.
— ¿Qué callamos?
El dolor que
de un hachazo abrió el cráneo,
que en la soberbia —
de círculos —
que crecen—
crece con nosotros
la   s o l e d a d — —

 
Zuzanna Ginczanka
 
 
Soberba
 
Somos
centros de círculos,
somos
centros de mundos
pensamos a palavra:
"eu"
fechados nela à chave:
a minha circunscrição, a minha circunscrição c e n t r a l
não quer irmanar-se com a tua:
somos
centros de círculos
e sete colinas
nos separam - -
 
os nossos círculos crescem de soberba,
incham de soberba
-oh, círculos
lagos de água,
- oh, fama
que fica grande estás!
no chapinhar da distância
já não se ouve a nossa própria onda -
perdemo-nos na hipertrofia desbotada
como nas cidades de betão armado.
 
- Falamos de quê?
De nós,
que é bom sermos o nosso próprio timoneiro,
que a liberdade é a nossa pátria
e o nosso orgulho multiplicado por cem.
- O que não dizemos?
A dor que
com um machado abriu o crânio,
que na soberba -
de círculos -
que crescem -
cresce connosco
a  s o l i d ã o - -
 

23 agosto, 2026

Die Deutschen Tagebücher / Os Diários Alemães


[ 9 ] zum Rond Point & fuhr mit der Tram zurück zum Hôtel de Ville. Zweimal Kaffeeim Café Guillaume Tell, Ecke Place de l’Hôtel de Ville. In einem cabinet d’aisance gepisst, was mich [...] Sous gekostet hat! Keine Lust mehr rumzulaufen. Aber was wird 6 ? Monate Deutschland anderes sein, als Herumlaufen, vor allem? On s’habitue. Im Café dela Porte gelandet, gegenüber von Brise-Lames & Anse des Pilotes, wo einen Pernod, Père, Fils et S.E. Der erste & letzte seit & bis wann?
Findees schade, dass ich die Franzosen schon so bald verlasse.
Et les douleurs? Vaut mieux ne pas commencer.
 
[ 9 ] to Rond Point & took tram back to Hotel de Ville. Coffee twice in Café Guillaume Tell, corner Place de l’Hotel de Ville. Pissed in a cabinet d’aisance, which cost me 5 sous! Tired walking around. But what will Germany be, for 6 ? months, but walking around, mainly? On s’habitue. Ended in Café de la Porte, opposite Brise-Lames & Anse des Pilotes, where a Pernod, Père, Fils et S.E. First & last since & till when?
Sorry to leave the French so soon.
Et les douleurs? Vaut mieux ne pas commencer.
 
[ 9 ] até Rond Point e apanhou o elétrico de volta para o Hotel de Ville. Café duas vezes no Café Guillaume Tell, na esquina da Place de l'Hotel de Ville. Fodido num cabinet d’aisance que me custou 5 sous! Cansado de andar por aí. Mas o que será a Alemanha, durante 6 meses? Vagueando, principalmente? On s'habitue. Terminado no Café de la Porte, em frente ao Brise-Lames & Anse des Pilotes, onde Pernod, Père, Fils et S.E. Primeiro & último desde & até quando?
Lamento deixar França tão cedo.
Et les douleurs? Vaut mieux ne pas commencer.

Samuel Beckett

22 agosto, 2026

la casa / a casa


la casa
 
El apartamento había crecido dentro de mí como un órgano.
 
Tuvimos una infestación de ratones para cada uno un nombre para cada uno una muerte nueva en una trampa limpísima.
 
Hacia mardi gras hubo tres días de tránsito
 
a otro tiempo y los mapaches empezaron a reproducirse.
 
Practicaban un amago.
 
No arreglaste la chimenea para no darle cobijo a otras bestias durante la cuarta nevada de abril tiramos todos los relojes al río devolvimos el cuerpo al agua.
 
Fue así cerrar la puerta como quebrarse una costilla.
 
 
Helena Mariño
 
 
a casa
 
O apartamento tinha crescido dentro de mim como um órgão.
 
Tivemos uma infestação de ratos para cada um um nome para cada um uma nova morte numa armadilha limpíssima.
 
Para a mardi gras houve três dias de trânsito
 
para outro tempo e os texugos começaram a reproduzir-se.
 
Praticavam um simulacro.
 
Não arranjaste a chaminé para não dar abrigo a outras bestas durante a quarta nevada de abril atiramos todos os relógios ao rio devolvemos o corpo à água.
 
Foi assim fechar a porta como se quebrasse uma costela.