26 setembro, 2026

I will eat your liver / Vou comer o teu fígado

 
I will eat your liver
 
There is a Farsi way
of making livers
romantic. The phrase
'I will eat your liver'
being idiomatic of
yearning. Yearning
being idiomatic of
the way nature has no
outline,
but imagination
does. Imagination
is the core
of a crush, I'd say.
 
And I don't mean
core like a ball
of white light.
I mean
layers of aerated
roots as fibres
passing through
an infinite linear
address space.
 
Imagine dismissing
the root
of a dream
when the dream
involves opening
a recordable
greetings card
playing your own
light breathing.
 
The handwritten
inscription evoking
an atmosphere
of time
straightened
by fire.
Why be cynical
about that?
Why assume
when we die
we are not
'prana', 'impetus',
we are not a flame
on ice
beating higher
and higher?
There is advice
for that.
There are units
in pavilions,
inseparable entities.
 
There are people
softening
due to a loss
of cohesion,
and there is a man
in my bedsit.
I'd eat his liver.
Not a speck
of blood
on my prayer
mat, I've simply
kowtowed
under the pressure
of ticking
daylight;
outside of time,
it's like
time is botanical.
Resting
in the dark
of my stomach
my soul
is a tiny flower,
basically.
 
 
Eve Esfandiari-Denney
 
 
Vou comer o teu fígado
 
Existe um modo farsi
de tornar os fígados
românticos. A frase
"Vou comer o teu fígado"
sendo idiomática de
ânsia. Ânsia
sendo idiomática do
modo como a natureza não tem
esboço,
apenas a imaginação
imagina. A imaginação
é o miolo
de uma paixão, diria eu.
 
E não refiro
o miolo como uma bola
de luz branca.
refiro
camadas de gaseificadas
raízes como fibras
em passagem por
um infinito linear
espaço de endereçamento.
 
Imagina descartar
a raiz
de um sonho
quando o sonho envolve abrir
envolve abrir
um audível
cartão de parabéns
tocando a tua própria
respiração leve.
 
A manuscrita
inscrição evocando uma atmosfera
de tempo
organizado pelo fogo.
Por que ser cínico
sobre isso?
Por que assumir
quando morremos
não estamos
'prana', 'ímpeto',
não somos uma chama
no gelo
batendo mais alto
e mais alto ainda?
Há um conselho
por isso.
Existem unidades
em pavilhões,
entidades inseparáveis.
 
Há pessoas
em amolecimento
por uma perda
de coesão,
e há um homem
no meu estúdio
Vou comer-lhe o fígado.
Nem um pingo
de sangue
na minha oração
em tapete, simplesmente
submissaq
debaixo da pressão
de tiquetaquear
a luz do dia;
fora do tempo,
é como se
tempo fosse botânico.
Descansando
no escuro
do meu estômago
o meu estar
é uma pequena flor,
basicamente.
 
 

24 setembro, 2026

busco algo / procuro qualquer coisa

 
busco algo  
que cuente del eco  
 
que atestigüe
la forma herbácea de los sismos
que narre el pulso que empuja
las costillas hacia afuera
 
ese ánimo navío
inserto entre los músculos
 
*
 
cuelga el océano  
el lado umbrío de la carne  
cuelgan nuestros ojos en una foto que envejece  
                            pasto de polillas
 
las caras de piedra y marfil cuelgan igual  
cómodas en la pared  
ignoran esos seres que fuimos, que no somos
 
la querencia de los árboles  
que intentaron seguir nuestros pasos
 
y solo enmudecieron
 
alguna espiga
algo de grano
en estas huellas
 
 
Ana Meucci
 
 
procuro qualquer coisa  
que conte sobre o eco  
 
que testemunhe
a forma herbácea dos sismos
que narre o pulsar que empurra
as costelas para fora
 
esse fôlego navio
inserção entre os músculos
 
uma espiga
um grão
nestes indícios
 
*
 
pendura o oceano  
o lado sombrio da carne  
penduram os nossos olhos numa foto que envelhece  
                            pasto de traças
 
os rostos de pedra e marfim assim estão pendurados
confortáveis na parede  
ignoram esses seres que fomos, que não somos
 
o afeto das árvores  
que tentaram seguir os nossos passos
 
e só emudeceram
 

23 setembro, 2026

movimentos perpétuos

 


heart is anxious
 
carries oceans
spilling over
splits the earth
within us
 
wants to burn up
 
all these years
we've left to melt
 
between us
 
wind is speaking
tongues of velvet
garnet curtains
spinning dust
 
around us
 
night was heavy
dared to linger
under eyelids
static shrouds
 
above us
 
 
Rūta Kuzmickas
 
 
o coração está ânsia
 
carrega oceanos
a transbordar
divide a terra
dentro de nós
 
quer queimar
 
em todos estes anos
saímos para derreter
 
entre nós
 
o vento está a falar
línguas de veludo
cortinas de granada
partículas de pó a girar
 
à nossa volta
 
a noite foi pesada
atreveu-se a ficar
no baixo das pálpebras
protetores estáticos
 
por cima de nós
 
 

19 setembro, 2026

le premier arrachement / a primeira avulsão

 
les enfants demandent une consolation
pour le premier arrachement
du lait chaud ou ta peau
mousse mémoire de leurs joies
tu leur offres une attention – t’alignes
vers ton devenir animal
dans le noir tu t’enfonces
en délaissant la rancœur
pour les caresses
on dit que les bêtes absorbent
les maladies des hôtes
tu ne feras pas intervenir une croyance
de peur qu’elle ne devienne malédiction

 
Vanessa Courville
 
 
as crianças pedem  um consolo
para a primeira avulsão
do leite quente ou da tua pele
espuma memória das suas alegrias
a elas oferendas atenção  - alinhas-te
em direção ao teu futuro animal
é no escuro que te arrombas
abandonando o ressentimento
em favor dos afagos
dizem que os animais absorvem
as doenças dos hospedeiros
não deixarás intervir uma crença
com medo que se torne uma maldição
 

18 setembro, 2026

L’algorithmisation du langage ne rompt / A algorítmica da linguagem não rompe


Le langage est le propre de l’homme, c’est vrai. Mais comme les mathématiques ou le calcul. Et nombre de philosophes majeurs, à commencer par les Grecs, ont considéré qu’il pouvait exister un langage logique détaché des rapports immédiats aux humains. Quand Aristote a le projet d’établir les lois de la logique, il cherche les liens permettant d’assembler les propositions ou de construire les énoncés qui seraient indépendants des croyances, opinions ou désirs qu’on va trouver chez tel ou tel locuteur humain. Il est donc déjà à la recherche d’un fonctionnement autonome du langage. Même chose chez Descartes, quand il fonde la mathesis universalis, il rêve d’un langage mathématique universel, sans parler de la caractéristique universelle de Leibniz [ il rêvait lui aussi d’une langue de calcul universelle et a inventé une machine calculatoire théorique, le calculus ratiocinator ]. L’algorithmisation du langage ne rompt donc pas, me semble-t-il, avec la tradition rationaliste ; elle en constitue peut-être l’aboutissement paradoxal. Ce qu’il y a de neuf n’est pas dans l’idée d’un langage autonome mais dans le fait que cette autonomie devienne opératoire et conversationnelle.
 
Catherine Malabou
 
A linguagem é própria do homem, é verdade. Mas da mesma maneira que a matemática ou o cálculo. E muitos dos filósofos importantes, começando pelos gregos, consideraram que poderia existir uma linguagem lógica separada das relações imediatas com os seres humanos. Quando Aristóteles tem o projeto de estabelecer as leis da lógica, ele procura os laços que permitam reunir as proposições ou construir enunciados que sejam independentes das crenças, opiniões ou desejos que se vão encontrar em tal ou tal locutor humano. Já está, portanto, à procura de um funcionamento autónomo da linguagem. O mesmo acontece com Descartes, quando funda a mathesis universalis, sonha com uma linguagem matemática universal, para não falar da característica universal de Leibniz [ que também sonhava com uma linguagem de cálculo universal e inventou uma máquina computacional teórica, o calculus ratiocinator ]. A algoritmização da linguagem, portanto, não rompe, ao que me parece, com a tradição racionalista ; talvez constitua a sua conclusão paradoxal. O que há de novo não está na ideia de uma linguagem autónoma, mas no facto de essa autonomia se tornar operatória e conversacional.