08 julho, 2026

No recuerdo el ladrido de los perros / Não lembro o ladrar dos cães



No recuerdo el ladrido de los perros,
ni la luz que parpadeaba en la ventana,
y aquel canto que oímos, ¿de qué boca saldría?
 
Tenía de muñeca una botella que mi madre vestía de gitana,
en la casa había niños,
rompían los cristales de la siesta con sus gritos de niños,
con sus piedras de piedra.
 
Había un almendro,
sus hojas tapizaban nuestra calle de un murmullo feliz.
 
Hubo días de sol y de aguacero,
sé que tuve dos hijas, pero nunca un jardín.
Merecí la dicha acaso por un tiempo
y mi regazo supo el peso de la vida, el roce de la prolongación.
 
¿Pero dónde fue aquello, sobre qué suelo edifiqué esa casa
que se me viene encima con sus muertos en ella?
 
Recuerdo un río, un puente muy estrecho. Mi padre iba delante,
yo siempre le seguía, detrás este silencio.
 
 
Lizette Espinosa
 
 
Não lembro o ladrar dos cães,
nem a luz que bulia na janela,
o tal canto que ouvimos, de que boca sairia?
 
A minha boneca era uma garrafa que a minha mãe vestia de cigana,
na casa havia crianças,
partiam os vidros da sesta com os seus gritos,
com as suas pedras de pedra.
 
Havia uma amendoeira,
as suas folhas atapetavam a nossa rua com um murmúrio feliz.
 
Houve dias de sol e de chuva,
sei que tive duas filhas, mas nunca um jardim.
Mereci a felicidade por algum tempo
e o meu regaço soube o peso da vida, o toque do prolongamento.
 
Mas onde foi aquilo, sobre que chão construí essa casa
que se volta contra mim com os seus mortos dentro?
 
Lembro um rio, uma ponte muito estreita. O meu pai ia à frente,
seguia-o sempre, por trás deste silêncio.


05 julho, 2026

Îţi simt fragilitatea prin tot oraşul / Sinto a tua fragilidade por toda a cidade

 
Anxo Pastor


Îţi simt fragilitatea prin tot oraşul
 
Îţi simt fragilitatea prin tot oraşul
Până şi-n ochii cerşetorilor o văd,
Ea colindă vitrinele, se afişează fără preţ,
Ce părere ai tu, Dragoste
Despre această frumoasă dezertare
A frumuseţii tale neauzite şi nevăzute,
Cum crezi că aş putea să mă împotrivesc ei?
 
Îţi simt fragilitatea prin tot oraşul
În răcoarea fântânilor arteziene,
Strecurându-se în adierile după-amiezelor
Răvăşind sufletele ce îţi ies în cale,
Dragoste, de ce ne înfiori
Fără să ne spui de unde vine această emoţie,
Îţi e teamă că am să dezvălui vinovatul?
 
Îţi simt fragilitatea prin tot oraşul,
Prin aripile vrăbiilor  îmbăindu-se-n ţărână,
Zborul lor se reazemă pe ce-ul tău inefabil,
Dragoste, lasă-ne să-ţi desluşim
Rădăcinile acestui abandon al frumosului,
Nu ne ispiti la nesfârşit cu această graniţă
A echilibrului fin dintre a fi şi a nu fi.
 
Îţi simt fragilitatea prin tot oraşul
În somnul dulce de la prânz al copiilor
Cu visele lor cu feţi-frumoşi şi zei,
Ea este cea care le înalţă zmeele,
Cine eşti tu, Dragoste
A cui eşti de fapt, ce cauţi?
Cine te-a trimis să ne tulburi mersul lucrurilor?
 
 
Marius Tucă
 
 
Sinto a tua fragilidade por toda a cidade
 
Sinto a tua fragilidade por toda a cidade,
Vejo-a até nos olhos dos sem abrigo,
Percorre as montras, expõe-se sem preço,
Mas o que pensas, amor,
Sobre esta bela deserção
Da tua beleza inaudita e nunca vista?
Achas que eu lhe podia resistir  ?
Sinto a tua fragilidade por toda a cidade,
Na frescura dos poços artesianos,
Incorporando-se nas brisas da tarde
Devastando os fôlegos que se cruzam no teu caminho,
Amor, porque nos estremeces
Sem dizer de onde vem essa emoção?
Receias que eu revele o responsável?
 
Sinto a tua fragilidade por toda a cidade,
Através das asas dos pardais banhando-se no pó,
O seu voo repousa sobre esse teu inefável,
Amor, deixa-nos distinguir
As raízes desse abandono da beleza,
Não nos tentes infinitamente com essa fronteira
Do fino equilíbrio entre ser e não ser.
 
Sinto a tua fragilidade por toda a cidade,
No doce sono do meio-dia das crianças
Quando sonham com príncipes azuis e deuses,
É ela quem empina os seus papagaios,
Quem és tu, amor?
De quem és realmente? De que estás à procura?
Quem te enviou para desandar o andar?
 
 

04 julho, 2026

¿ y a raiz del día ? / e imediatamente após o dia ?


¿ y a raiz del día ?
 
Desciende.
No con los pasos,
con la respiración.
 
La tierra te abrirá
su umbral oscuro.
 
Detente
ante la hondonada primera,
aquella que no figura
en los campos verdes.
 
Inclina la frente.
Que la sombra te mida.
 
Toma un puñado de limo
y déjalo caer sobre el silencio.
Nada responderá.
 
Cuando el olor del suelo
cambie de peso,
cuando el aire se vuelva suelo,
cuando la piedra empiece a latir
por debajo de sí misma,
entonces extiende la mano
hacia la oscuridad que tiembla.
 
No busques luz.
Busca la forma.
 
 
Bárbara Aguilar Carmona
 
 
e imediatamente após o dia ?
 
Descer.
Não com pés,
com respiração.
 
A terra abrirá
a sua entrada escura.
 
Parar
ao primeiro barranco,
aquele que não aparece
nos verdes campos .
 
Inclinar a testa.
Deixar a medida à sombra.
 
Apanhar um punhado de limo
deixá-lo cair sobre o silêncio.
Direito a não prestar declarações.
 
Quando o cheiro do chão
mudar de intensidade,
quando o ar se tornar terra,
quando a pedra começar a pulsar
por baixo de si mesma,
aí estender a mão
até ao escuro que treme.
 
Não procurar a luz.
Procurar a forma.
 

29 junho, 2026

In need of a funeral / Preciso de um funeral


In need of a funeral
 
Even though no one has died and there is no one
to touch in the coffin the way my brother
touched the dead-man relation
whose name we didn’t know, whose features furrowed
like set sugar and whose black nails shone —
I have need of a funeral.
Even though death is not where I wish to go to,
down the wet green road through the straight black gate —
I have love in the morning, a candle, a radio
and a child’s smile blooms over my fireplace.
If I don’t walk to the river the river is by my window —
I have need of a funeral.
 
It came to me the day I stole communion in the cathedral,
not knowing what to do and squinting wildly,
that I had need of a funeral.
Something the man said as he tipped wine
and crushed bread felt helpful. He said sometimes a line
between what was and what is can be visible,
 
which is why we eat flesh and drink blood. Kirie.
I took flowers, an Oxfam veil, a bottle of Scotch, a speech
and made it to the sprawl of Milltown Cemetery
where I littered a hill with old shoes and milk teeth.
 
There was a pattern to the pattern my breath made on the air
as it extended towards the motorway.
 
 
Sinéad Morrissey
 
 
Preciso de um funeral
 
Embora ninguém tenha morrido e não haja ninguém
a quem tocar no caixão como o meu irmão
tocou num morto parental
cujo nome desconhecíamos, cujas feições estavam esburacadas
como açúcar cristalizado e cujas unhas pretas brilhavam -
Preciso de um funeral.
 
Mesmo que a morte não seja lugar onde queira ir,
descendo a húmida estrada verde através do portão preto direito -
Tenho amor de manhã, uma vela, um rádio
e o sorriso de uma criança floresce na minha lareira.
Se não for ao rio, o rio é ao pé da minha janela -
Preciso de um funeral.
 
Ocorreu-me no dia em que roubei a hóstia na catedral,
não sabendo o que fazer e semicerrando os olhos freneticamente,
que eu precisava de um funeral.
Algo que o homem disse enquanto deitava o vinho
e o pão esmagado parecia útil. Ele disse que às vezes uma linha
entre o que era e o que é pode ser visível,
 
por isso comemos carne e bebemos sangue. Kirie.
Levei flores, um véu da Oxfam, uma garrafa de uísque, um discurso
e consegui chegar ao campus do Cemitério de Milltown
onde instalei uma colina com sapatos velhos e dentes de leite.
 
Havia um padrão no padrão que a minha respiração fazia no ar
enquanto se estendia em direção à autoestrada.